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Conversa #1: Mobilidade e sustentabilidade
Ter

 

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04


2022
Reports

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© DR

Samuel Silva

— Jornalista —

Com: John K. Cobra, Ong Keng Sen, Tamara Cubas 

Moderação: Nayse López 

Provocação artística: Alejandro Ahmed


Há um espectro que ronda toda esta conversa: o espectro da pandemia. A experiência traumática dos últimos dois anos é uma marca em todas as falas, uma referência permanente; serve de ponto de comparação para quase todas as experiências. Foi um “momento radical”, resumiu o encenador Ong Keng Sen. Um processo “importante” porque “todo o mundo estava nivelado” nesse momento.


Pela primeira vez – pelo menos nos nossos tempos de vida – “o mundo parou”. Ninguém saiu de casa. Ninguém viajou, ninguém subiu a um palco, poucos conseguiram continuar a criar. Por uma vez, todas as pessoas do planeta tiveram que enfrentar o mesmo problema, lembra Keng Sen. Há, por isso, um antes e um depois da pandemia.


Mas também há um durante a pandemia, assinalou o artista plástico Roland Gunst (também conhecido como John K. Cobra), quando lembrou a “paz de espírito” que sentiu nesse momento em que todos travámos a fundo. De repente, não era foi necessário responder à permanente solicitação da novidade e essa parece ter sido uma sensação de liberdade e também de aprendizagem.


Ainda que esta ideia não tenha sido explorada nesta primeira sessão do ciclo de conversas que os festivais DDD e Panorama promovem por estes dias, importa fixá-la. Talvez venha a ser importante nas próximas sessões, sobretudo quando se refletir sobre o futuro das práticas artísticas, as novas formas de produção, de performance e, necessariamente, também de programação.


Nesta primeira conversa (aconteceu em formato online, a 4 de abril) o tema era a sustentabilidade. Mas, afinal, do que falamos quando falamos de sustentabilidade? Falamos, sobretudo, de questões ambientais, como foi sistematizado na introdução à sessão feita pela moderadora Nayse López e pelo coreógrafo Alejandro Ahmed? Ou a sustentabilidade “é mais complexa do que isso”, como sugeriu Tamara Cubas?


Talvez algo de intermédio, a avaliar pelas restantes intervenções. A questão ambiental – não se usou a expressão “emergência climática”, mas ela também pairou sempre na conversa – é incontornável e vai marcar os debates e as decisões dos próximos cinco a dez anos. No entanto, nesta sessão recusaram-se as soluções simplistas. A questão é de facto “mais complexa” e a precisar de soluções mais profundas do que uma redução drástica nas viagens de avião ou um menu integralmente vegan nos festivais podem garantir.


O texto introdutório deste ciclo de conversas enunciava que, durante os primeiros tempos da pandemia, vivemos com a sensação de que, findo esse período, nada ficaria igual. O problema é que “talvez muita coisa tenha ficado pior!”, escrevia-se. Esta foi uma ideia também explorada, na conversa no dia 4 de abril, por Ong Keng Sen e Nayse López. Nos primeiros encontros de programadores após a pandemia, parecia que “nada tinha mudado”. “Parecia 2015”, ilustrava a diretora do festival Panorama, que moderou a sessão.


Uma inquietação a que tentou responder Ong Keng Sen quando apontou para um processo (de mudança) “que está incompleto, inacabado”. Half-digested. Há esperança?


Esta conversa decorreu, portanto, num contexto pós-traumático e de mudança (ou pelo menos de vontade dela). Falamos de festivais. Da forma como são feitos – programados, produzidos, também comunicados. Da pertinência deste lugar de encontros.


Na “provocação” em vídeo com que iniciou a sessão, Alejandro Ahmed lembrou a importância histórica destes eventos. Para a companhia Cena 11, que dirige a partir de Florianópolis, no Sul do Brasil, integrar a programação de festivais – sobretudo na década de 1990, pré-Internet – foi a oportunidade de “ser visto” e chegar a plataformas nacionais e internacionais que de outra forma lhe seriam inacessíveis.


Os festivais também são uma forma de encontro com outros artistas e de formação. “É vital sair do seu lugar”, diz Ahmed. “Estar em contacto com outro modo de pensamento, com outro modo de urbanismo e com outro modo de organização da via sócio-cultural”. Os festivais permitem-no. As viagens pelo mundo também.


A pertinência que mantém o encontro, a presença física num espetáculo ou num festival uma das ideias mais fortes que perpassou várias intervenções. Ken Sen valorizou a dimensão do festival como “tempo e espaço para o encontro”. Para sentir os corpos, o suor, a saliva do outro.


A coreógrafa Tamara Cubas afirma que “é muito importante a experiência de estar num outro lugar”, para “entender o mundo e até para entender o lugar de onde somos”. Vermos uma imagem de um lugar, não é estar no lugar, referiu. “Não seremos capazes de viver juntos fará com que tenhamos apenas uma ideia vaga do que é o outro”. E isso é, avisa a coreógrafa uruguaia, uma “coisa perigosa”.


De resto, na “provocação” inicial Alejandro Ahmed já havia apontado para o “desafio histórico” da presença nas artes vivas na introdução à conversa. Havia que encontrar alguns caminhos de resposta. Roland Gunst sugere que os festivais “não podem ser uma pura representação da sociedade em que está instalado”. Devem questionar, desordenar.


Para Nayse López não é possível continuar a fazer festivais da mesma forma como todos os grandes eventos têm vindo a ser feitos nos últimos anos. “Não tenho nenhuma vontade de programar 25 espetáculos se eles não forem parte de uma questão mais ampla”.


Essa “questão mais ampla” é uma possibilidade de resposta às inquietações levantadas. O que pareceu claro nesta conversa foi a vontade de questionar os fundamentos.


Nesse sentido, nenhuma intervenção foi tão vital como Ong Keng Sen, que lançou perguntas radicais: “O que é valioso naquilo que eu faço?”; “Será que o caminho é fazermos outra coisa juntos?”; “Quem é o público [dos festivais]?”.


E então “O que significa estar presente?” perguntou também, avançando com uma possibilidade de resposta: face aos desafios da sustentabilidade, devemos questionar os nossos movimentos, as nossas viagens, e selecionar onde podemos e devemos estar presentes. O essencial, propõe Keng Sem é “estar presente onde a mudança é necessária”.


Ou seja, “ainda é importante” reunir 50 pessoas de todo o mundo, mas é preciso que essas pessoas sejam “fazedores de mudanças”, que depois desse encontro possam voltar para os respetivos contextos e mudar as suas realidades locais. “A reunião humana continua a ser importante”. A questão será tornar significativa cada um desses encontros.