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Cuidemos da Floresta II: A insistência em florir
Sáb

 

18

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04

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2026
Cuidemos da Floresta II: A insistência em florir
© DR

Pedro Vilela

Existe uma cidade erguida sobre uma pedra tão dura que ninguém jamais conseguiu fincar nela uma raiz sem antes pedir autorização. Assenta-se numa zona de transição geológica, com forte presença de granito. Os antigos diziam que era forte, resistente, orgulhosa - e era. Nenhum vento a derruba, nenhuma mudança a atravessa sem ser medida, carimbada.


Houve um tempo em que, apesar da dureza do solo, as flores nasciam nos lugares improváveis. Entre uma padaria e uma farmácia, brotavam cores inesperadas; no fundo de um armazém, cresciam espécies sem nome; num beco estreito, pequenas florações reuniam mais gente do que qualquer jardim oficial. Não tinham licença, mas tinham vida. Antes de eu conhecê-la, contaram-me que houve um homem que tentou resolvê-la pela força bruta: arrancou plantas pela raiz, cobriu canteiros, deixou a terra às escuras como quem acredita que, sem luz, o desejo também se apaga. Por um tempo, a cidade pareceu estéril. 


Então surgiu um jardineiro de luvas brancas. Dizia amar as plantas da cidade, lamentava o abandono deixado pelo homem anterior, e por isso decidiu cuidar de tudo. Cercou os canteiros, alinhou as espécies, catalogou cada folha, definiu horários para o sol e medidas para a água. Nada mais morreria por falta de cuidado, nada mais também cresceria fora do desenho. As plantas voltaram a florir, mas já não sabiam mais como nascer sozinhas. E o jardim, impecável, passou a ser admirado não pela sua vida, mas pela sua ordem. E assim, sem destruir o jardim, conseguiu algo questionável: domesticá-lo.


No centro desta cidade tudo passou a funcionar como um jardim geométrico, podado até a exatidão, onde cada caminho já vinha traçado antes mesmo do primeiro passo. Para atravessá-lo, não bastava ter o desejo de plantar; era preciso preencher alguns requisitos, alinhar intenções, traduzir o impulso, receber uma aprovação. O jardineiro então reativou grandes estufas de vidro, ambientes controlados onde temperatura, luz e humidade eram medidas com precisão. Para que cada planta ali pudesse existir, formulou critérios.


As pessoas passaram então a passear por esses jardins reativados, a partir de percursos definidos, inaugurações sazonais, estações programadas. Diziam umas às outras que a cidade estava mais rica, mais organizada, mais acessível. E era verdade, de certa forma. Tinha-se a impressão de uma imensa floração ou, ao menos, o que poderíamos chamar de floração visível.


Mas algo estranho começou a acontecer. As plantas começaram a parecer-se entre si. Não na forma, mas na intenção do seu florescer. Todas apontavam na direção certa, todas exibiam cores esperadas, todas se abriam segundo uma lógica compreensível. Não havia crescimento desordenado, nem perfume excessivo, nem espinhos fora de lugar. A surpresa tornou-se um erro de cálculo. A cidade então encheu-se de polinizadores legitimados. Ainda havia voo, ainda havia troca, mas antes de cada travessia era necessário um selo de “coproduzido”. Sem ele, o ar parecia rarefeito.


Nenhuma planta ali permanecia tempo suficiente para criar raiz profunda. As florações surgiam como fenómenos passageiros: abriam, eram observadas, e logo substituídas por novas espécies igualmente controladas. Não havia tempo para a adaptação ao solo, para o crescimento imprevisível, para a continuidade. Cada flor nascia já adulta, classificada, enquadrada e desaparecia antes de deixar sementes. Assim, a cidade acabou por se tornar um jardim visitado por outras borboletas migratórias: belas, mas sempre em passagem. 


Penso todos os dias nas contradições desta cidade. Não me interessa arrancar estes jardins pela raiz. Há quem os critique por serem demasiado controlados, demasiado previsíveis, mas, ainda assim, neles algo floresce. Com cuidado, continuo a elaborar formas de existência nela, tendo em vista que algo ainda mais perigoso se aproxima, algo de outra natureza: jardineiros de luvas vermelhas, impacientes com qualquer forma de crescimento que não lhes sirva. Jardineiros que não desejam podar nem reorganizar, mas simplesmente limpar o terreno, pois, para eles, não há diferença entre o que é domesticado e o que é selvagem: tudo o que floresce é suspeito. Nas cidades por onde têm passado, não deixam canteiros livres, apenas terra estéril. 


Certo é que nos arquivos subterrâneos, esquecidos, não proibidos, restam vestígios do que a terra fora. Sementes guardadas em envelopes improvisados, registos imperfeitos de florações passadas, espécies complexas em cultivar. No fundo, talvez a grande dificuldade desta cidade que habito seja proporcionar desejos suficientes para criação de raízes de afeto, de pertencimento. Algo para além de um jardim ordenado ou um terreno selvagem, mas uma rede subterrânea de ligações que escapam ao olhar apressado, a partir de becos quase invisíveis, floridos por vidas que não se deixam classificar, que ainda acreditam em outras formas de convivência.


A pedra não cede facilmente. A cidade permanece de pé, orgulhosa do seu título: Invicta. Mas, em seu silêncio, continuo a questionar se assim foi moldada pela sua força ou porque ainda não foi permitido ser atravessada por uma verdadeira primavera.


O texto mantém as opções do autor, tanto no que respeita à variação ortográfica como à sua expressão estilística própria.

Cuidemos da Floresta II: A insistência em florir
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