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DDD 2021: Alessandro Sciarroni - Augusto
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Alice Brazzit
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Vencedor do Leão de Ouro na Bienal de Veneza em 2019, Alessandro Sciarroni tem, aos 44 anos, uma obra internacionalmente reconhecida onde as artes performativas se cruzam com as artes visuais e com a pesquisa teatral. Em Augusto, que integra a programação do DDD 2021, o coreógrafo italiano constrói, com nove bailarinos, uma performance visceral e minimalista sobre o ato de rir e os seus efeitos.



“Em Augusto, coloco em cena algo que é muito difícil, quase impossível, de comunicar. Ali, ri-se de tudo, mas na verdade não há razão para rir. A viagem inicia-se como um jogo, quase como uma reminiscência da infância. Mas muito rapidamente entende-se que o riso é também uma espiral que impede os performers de acederem à expressão de outros sentimentos, como a dor ou o desdém pela violência. De uma certa forma, em trabalhos anteriores, a minha perspetiva era menos pessimista do que neste espetáculo”, conta-nos o coreógrafo italiano.


Augusto era o nome do primeiro Imperador de Roma, mas remete também para o arquétipo do palhaço louco e disparatado, síntese de todas as imperfeições humanas. Uma referência de partida que acabou abordada de forma pouco explícita em cena: “Provavelmente quem entrar no espetáculo com a expetativa de assistir a algo que aborde diretamente o universo clownesco poderá sofrer uma desilusão. No Augusto, aquele palhaço que combina mil problemas, que está sempre bêbedo e deslocado, o que me fascinou foi um certo extremismo na sua obstinação pela ingenuidade. Neste espetáculo, apresentamos essa mesma obstinação, mas as implicações são tudo menos cómicas”.



Explorar o riso até ao esgotamento físico e psicológico implicou um processo de várias semanas, “nas quais os artistas ensaiaram para produzirem o tipo de riso que estava à procura e para conseguirem energia suficiente para aguentarem todo aquele esforço físico. Outro grande desafio foi aprenderem a controlar o riso quando se ele tornava epidémico”. Nesse processo, o coreógrafo e o seu elenco contaram com o apoio de um formador em Yoga do Riso que orientou também os bailarinos “num dos aspetos mais importantes nos meus trabalhos: o controlo eficaz da respiração”, afirma o Sciarroni. “Ainda que, em palco, possamos evocar sentimentos, como a dor ou a sofrimento, é muito importante que os bailarinos tenham as ferramentas técnicas para se sentirem bem e, em alguns casos, sejam mesmo capazes de sentirem prazer em palco”.


O resultado é uma obra de pulsões viscerais, na qual emana uma coreografia de aproximação ao coletivo, num desejo de aceitação incondicional pelo outro. Impactante, Augusto desafia os limites da resistência dos bailarinos e devolve ao público, qual espelho, um impulso tão automático quanto desconcertante.


Alessandro Sciarroni foi entrevistado em julho de 2020.


Alessandro Sciarroni
Augusto
17.04.2021  22H00
Teatro Campo Alegre - Sala Estúdio



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