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DDD 2021: (La)Horde - Room with a view
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Auge Arago
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Da janela do espetáculo que o coletivo francês (LA)HORDE criou com o músico e dj Rone avista-se o colapso do mundo. Room with a view é um choque sonoro e visual para descobrir no Teatro Rivoli, no primeiro dia do próximo DDD – Festival Dias da Dança (15 abril – 2 maio 2021).


Ao longo dos anos, Marine Brutti, Jonathan Debrouwer e Arthur Harel construíram um percurso multidisciplinar. Navegando à margem da cultura dominante, trabalharam com idosos no espetáculo Void Islands, com cegos em Night Owl, colaboraram com um grupo de bailarinos de jumpstyle, que conheceram pela internet, no memorável To Da Bone, antes de embarcarem na aventura georgiana Marry me in Bassiani, inicialmente prevista para abrir o DDD em abril de 2020. Em setembro de 2019, o trio assumiu a direção artística do Ballet national de Marseille (BNM). Primeira obra criada nesse contexto institucional, Room with a view estreou em Paris no passado mês de março, dias antes do mundo mergulhar num inesperado confinamento.


“Nas nossas colaborações, sempre quisemos questionar o espectro de significados políticos da dança, pesquisando online novas coreografias que expressassem levantamentos populares, fossem eles levantamentos massivos, como as raves, ou isolados, como o jogo aéreo de pernas do jumpstyle. A internet é um território de exploração infinito para a dança. Nos nossos espetáculos, tentamos interrogar as novas definições de dança que vemos emergir por aí. Trabalhar para diferentes suportes (performances, filmes, peças coreográficas…) foi absolutamente necessário para multiplicar os pontos de vista sobre os objetos que criamos; é uma forma ininterrupta de questionar o sentido do que fazemos”, explicam os três fundadores do coletivo.


Room with a view segue essa linha questionamento para evocar uma mensagem contestatária ancorada num ambiente de rave. Em palco, o cenógrafo Julien Pleissel construiu uma pedreira, espécie de enorme falésia branca com um orifício central no qual surgem os bailarinos. “Imaginamos uma pedreira de mármore que evocasse a pedra mais icónica da história da arte, um local de extração mortal cujas linhas e brancura relembrassem também a arquitetura do edifício do BNM, onde a peça nasceu. Esta pedreira é um local de poesia e de caos, onde poderíamos questionar as possibilidades emancipatórias do corpo num contexto de colapso generalizado: o colapso dos seres vivos e da biodiversidade, mas também o colapso positivo de sistemas opressores, como o patriarcado. O maior desafio em todo este processo foi evitar discursos moralizadores. Não queríamos fazer uma peça sobre ecologia, mas sim falar da nossa relação com a comunidade e com o corpo no contexto político especialmente conturbado em que vivemos. Não acreditamos na passividade do público e queremos que os nossos espetáculos sejam também momentos de empoderamento".


Vinte intérpretes entregam-se, então, a uma coreografia vibrante, entram em transe, questionam o caos do mundo em contorções virtuosas, revoltam-se, atiram pedras. Numa palavra: resistem. “A inspiração veio de diferentes contestações recentes, desde o Rave for Climate até ao movimento lançado pelo coletivo de mulheres chilenas Las Tesis em torno de sua canção Un violador en tu camino, cuja coreografia se espalhou por todas as manifestações feministas do mundo. A dança é um vetor de mobilização poderoso que permite transcender as clivagens. Queríamos contar a história de um grupo, cuja festa é interrompida por um colapso, mas que, para poder estar à altura dos desafios de nosso tempo, tem de transformar em ação a violência que impede a vivência em comunidade. Se encenamos a violência, não é para glorificá-la, é para que a possamos questionar. Contribuímos com o que sabemos fazer: com o poder da música e com a energia que o corpo carrega”. 

Mas nem só de caos vive o mundo e (LA)HORDE sabe-o bem. Por isso, Room with a view cede também espaço à ternura e aos corpos que se buscam numa intimidade frágil. Afinal, ainda que o teto esteja prestes a ruir sobre as nossas cabeças, é na intimidade que se respira e que se renovam energias para que, uma vez refeitos, possamos continuar a dançar e a enfrentar o futuro coletivamente: “Estamos convictos de que juntos podemos formar um corpo-conjunto e não sermos apenas uma justaposição de corpos que vivem lado a lado. É essa coesão que procuramos na dança, ainda que, na peça, o grupo nunca apareça como homogêneo e indistinto. Não queríamos avançar com propostas falsas nem com uma solução definitiva que apagasse as singularidades de cada um. A comunidade só será poderosa e verdadeiramente bela se preservar a sua diversidade. A música de Rone permitiu-nos explorar e transmitir essas questões sem recorrer a palavras, o que é importante para nós, em prol de uma linguagem que pudesse ser universal”.


Marine Brutti, Jonathan Debrouwer e Arthur Harel foram entrevistados em setembro de 2020.



(LA)HORDE com Ballet national de Marseille

Room with a view
15.04.2021 - 22H00
Teatro Rivoli, Porto


 


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