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DDD 2021: Poliana Lima - Las cosas se mueven pero no dicen nada
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Radicada em Espanha desde 2010, a brasileira Poliana Lima tem vindo a construir um percurso consistente e cada vez mais visível enquanto docente, bailarina e coreógrafa. Premiada no Certamen Coreográfico de Madrid com Atávico, uma obra que se centrava na memória da violência corporal tendo a ditadura militar brasileira como pano de fundo, Poliana Lima marcará presença no DDD de 2021 com Las cosas se mueven pero no dicen nada, uma peça coreográfica para 10 bailarinas imóveis da cintura para baixo. O espetáculo estreia no próximo fim-de-semana nos Teatros del Canal, em Madrid.


Em 2016, Las cosas se mueven pero no dicen nada teve uma primeira versão, mais curta, que partia de um conceito espacial bastante preciso: as bailarinas jamais sairiam da sua posição. Conta-nos Poliana Lima: “Pouco a pouco, foi-se desenhando que o torso, os braços e as cabeças seriam os sítios onde se apoiaria o gesto coreográfico. Como era uma peça curta com um elenco grande, se apresentou poucas vezes e em uma dessas vezes me chamou a atenção o som que as bailarinas produziam com o seu movimento”. 


Agora, de volta a este trabalho para uma nova versão de cerca de 70 minutos, a coreógrafa pretende ampliar a relação com o som produzido pelo corpo quando exposto ao movimento e à repetição: “A peça está ancorada na matéria. Como soa a carne e como se altera a respiração? A partir desses elementos, somados à repetição e à insistência no mesmo lugar, começou a se configurar uma nova paisagem. Sinto que a peça evoluiu de algo mais formal, de uma ideia imposta ao corpo, para apoiar-se no corpo totalmente. E esse fato ampliou o espectro de leituras possíveis”.


Las cosas se mueven pero no dicen nada aborda a relação entre a identidade e a diferença, apelando a um elenco inteiramente feminino. Parte dele foi selecionado numa audição destinada a bailarinas da área metropolitana do Porto, que o Teatro Municipal do Porto organizou em novembro de 2019. “Em algum momento tive de substituir um bailarino que dançava na primeira versão da peça e optei por uma mulher. Ao ver um elenco feminino completo e tão diverso - porque são todas muito diferentes entre si - me dei conta de que optar por um elenco 100% feminino assumiria conotações políticas em seguida. Senti que o trabalho ficou mais contundente assim, ainda que tenha perdido em abstração. Ver 10 mulheres que se movem sem nunca mexerem as pernas, é quase como vê-las expostas à intempérie e isso demarca um campo muito concreto de leitura”.


O título da peça pode, segundo a coreógrafa, soar “pouco comprometido, pessimista ou mesmo banal: dizer que as coisas se movem mas não dizem nada… Minha perspetiva inicial era justamente a contrária. Tudo está em movimento constante, as coisas têm sua presença e vibração e, a longo prazo, estão vazias de discurso. Tudo simplesmente se move. Poder contemplar isso e sentir o impacto do que está vivo me parece maravilhoso e misterioso. Sinto que essa foi minha verdadeira inquietude, sem dúvida a mais abstrata, talvez a mais visceral e provavelmente a mais irracional”, conclui sobre a peça a descobrir, em 2021, no Auditório Municipal de Gaia.


Poliana Lima foi entrevistada em julho de 2020.

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