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E o corpo repetiu incessantemente
Ter

 

03

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05


2022
Ensaios

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Ensaios
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Alexandra Costa

— Artista e investigadora —

De manhã, eu sou uma manhã e é quando me configuro. E o corpo repetiu incessantemente. Distribuição corporal: focal, segmentada. Padrão temporal: estático, persistente. Isolado: nenhuma evidência de outro distúrbio no movimento.

 

Do lado direito, uma estrutura, objeto de curiosidade, determinantemente incompleta. Do lado direito, uma mesa, com pratos, uma maçã e um turíbulo. Ainda demora para que se sinta o cheiro que nos conduz ao universo da liturgia. Sem aviso, entra um homem num caminhar lento de quem carrega muitos anos. Acuidade visual severamente comprometida. A cegueira que se pode traduzir num movimento sem paixão. Somos convidados a participar na composição. Na composição da estrutura que é, por vezes, completada; por vezes, subtraída. Estrutura física como representação de composição musical. A representação física do som através do movimento de uma coluna que segue o homem, como a aproximação de um futuro de contornos claros e derradeiros. 

 

A nossa narrativa é interrompida. Se até aqui pensamos em composição, somos automaticamente conduzidos à decomposição - alteração profunda, desorganização - pelo abrupto desmontar do palco.

 

De tarde, eu sou uma tarde e é quando me confronto. E o corpo repetiu incessantemente. Distribuição corporal: multifocal. Padrão temporal: progressivo. Combinado: acompanhado de movimentos involuntários.

 

O turíbulo em balde. São distribuídos em torno do palco pequenos animais de forma cadenciada. A-pai de B-pai de C e D-mãe de E-pai de F, G, H... movimentação temporal como indício da movimentação intemporal que nos atravessa. Vários sujeitos tomam o palco.

A morte claramente expressa de um primeiro ato para um renascimento de um segundo, uma lembrança de que várias coisas nos tornam próximos. Uma peça, uma estrutura, uma composição. Somos seres compostos de outros, as nossas histórias interligadas na temporalidade e naquilo que não é afetado pelo tempo. 

A descrição oral do movimento, a descrição oral que acompanha o movimento, a descrição que insiste na fisicalidade e na fragilidade dos corpos. O contraste entre a desordem e a intimidade em esforço constante.

 

De noite, eu sou uma noite e é quando me resolvo. E o corpo repetiu incessantemente e incessantemente repetiu. Distribuição corporal: generalizada. Padrão temporal: paroxístico. Apoteose.

 

O som surge como representação de memória coletiva e apoteótica. O ritual fúnebre e o corpo em tensão. As paixões que nos atravessam, a imortalização do ato de morrer.

Enquanto dançamos, a terra cai sobre nós.