Qua
10
maio
Efabulações a partir de NICHT SCHLAFEN
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Uma cerimónia de culto à morte e, por conseguinte, à vida. Corpos que veneram uma escultura de cavalos embalsamados. Um pedaço, um recorte, uma amostra de humanidade. Todo o Homem reunido num palco, todas a raças, todas as etnias, todas as crenças. Uma desigualdade de género. Respira-se um estado de solenidade e uma aura de sagração.

Uma coreografia ritualística e tribal com cânticos negros que se precipita para um confronto de diversidades, uma batalha de relações dicotómicas. Ouvem-se gritos de guerra, gritos de dor e lágrimas de desespero. Os conflitos surgem do nada, por razão nenhuma e por todas as razões do mundo. Lutamos e não sabemos porquê; lutamos e continuamos a lutar na esperança de compreender o que nos incita a combater e no meio de tudo isto, lutamos. E órgãos ferem-se e corpos desmembram-se e músculos pisam-se e ossos dizimam-se e cérebros fervem e artérias esvaem-se até restar apenas um amontoado de corpos cujas almas atormentam os lugares e os não-lugares.

Um rasgar de roupas, um rasgar de peles, um rasgar de identidades, um rasgar da essência de se ser humano. O que é afinal ser-se humano? Quando nos despimos de tudo, o que é que nos resta ainda? A beleza, o sublime no horror, no grotesco, no inóspito de ser-se humano. Ficamos agarrados ao sofrimento, alimentamo-nos dele e salivamos por mais.

E neste caos de certa forma organizado, um caos orgânico, surge um desprendimento. Somos apanhados por esta viagem pela contemporaneidade que nos leva de regresso ao início dos tempos, que nos questiona se a salvação estará inscrita no mito do eterno retorno. Sem dúvida que a História se repete e que os Homens defecam e pisam as fezes ainda quentes uma e outra vez e outras inúmeras vezes ainda. Será necessária a extinção da espécie humana para que possamos renascer e, desta forma, começar de novo? Regressar aos tempos da agricultura e criação de gado, aos nómadas recoletores, ou a algo ainda mais primário: ao animal. O que é que de animal há no Homem? Olhamos um homem e vemos um cavalo, vemos os cascos, a sua corpulência, sentimos a respiração pesada do animal de grande porte. Vemos as lutas territoriais, os rituais de acasalamento. Quando o instinto é de sobrevivência, as nossas preces vão para o Deus das Moscas e tememos sucumbir ao que há de pior em nós, ao que há de mais monstruoso em ser-se humano. Mas apesar das diferentes texturas de pele e das diferentes linguagens, todos respiramos, sofremos e suamos, fazemos todos parte de um corpo comum, sem fronteiras.


A dança de Platel espelha claramente o tempo de incerteza em que vivemos atualmente, é como pisar um campo de minas e querer sair dele vivo. Vivemos tempos vertiginosos, em que as mudanças são tão repentinas que simplesmente não temos tempo para as assimilar. É urgente acordar uma sociedade anestesiada pelas bombas, pelo terrorismo e pelas atrocidades humanas. Como é que é possível dormir de noite, quando os Cavalos do Desastre cavalgam com o prenúncio do fim do mundo?

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