Sáb
29
abril
MUROS E A ONDULAÇÃO DO HORIZONTE
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José Caldeira

Rossana Mendes Fonseca

— fotógrafa e escritora, leitora atenta e séria deambulante —

Começamos com um muro que encerra o palco. Como se uma cortina fosse, há detrás algo que ressoa. Um som grave, como uma tuba. O som aproxima-se. E o muro abre-se, mostrando-nos corpos prostrados, que num vaivém, ora se erguem, ora se baixam.

Lentamente, deixa-se o chão. Estremecemos no estremecimento dos corpos, como uma agonia pelo movimento. Micro-movimentos até ao convulsionar total do corpo. Mover-se parece sempre ser a fuga mais imediata ao encerramento. Ao encerramento de muros, ao encerramento do corpo, ao auto-encerramento. Como se se pudesse sacudir, a vários ritmos, a várias velocidades, a vários tempos, algo que os constrange, estes corpos que dançam tornam-se hirtos e ondulantes, na torção interior de cada tecido até ao convulsionar da própria tendência motriz, da própria dor. Movimento em tensão, como se se tratasse de um gesto de libertar o interior do próprio corpo. A voz que é calada e recolhida no grupo.

Como num jogo da apanhadinha, corre-se, salta-se, assalta-se o outro, que «dança violentamente». Há bloqueios instantâneos perante o próprio movimento. Trata-se de um esbracejar, de uma convulsão coletiva no espaço. E, na parte da sombra, há uma voz que insiste na palavra. A palavra vinda de um lugar misterioso, não permeado pela luz. Esse espaço. Em mudança constante. Com os corpos, estruturas metálicas mais ou menos sólidas e opacas, que ora se transformam em janelas, ora em portas, dando-nos a ver momentos desses corpos em fragmentação, são também movíveis. Segue-se a palavra, corre-se no trilho dela. Na excentricidade dos trajetos, encontramos ainda uma preocupação formal, que não deixa de ser a da dança; dança-se quando se pretende habitar um corpo novo, que no encontrar de novas formas de habitar o mundo, muda a sua própria roupagem. E os muros. Obstáculos, impedimentos, que nos fazem procurar um sempre outro horizonte.

Em «Muros», circula uma confrontação do corpo do espectador com o corpo daquele que dança perante ele. O nosso corpo de espectador não está imóvel, é atravessado pela experiência do intervalo variável entre este nosso corpo e o do outro que se aproxima e se afasta. E, se podemos afirmar, que esta experiência da dança, no contemporâneo, não é um mero exercício formal em ruptura com um eixo clássico ou modulação teórica de uma imagética política e social, mas presença sensível, visual, também sonora, quase táctil, pensamento em ato, então o lugar desde onde olhamos será constitutivo de toda essa experiência sensível. E se o olhar de cima e o olhar no mesmo horizonte são lugares distintos desde onde o olhar parte, que elaboram formas éticas igualmente distintas de se colocar perante algo — uma claramente distante e hierarquizada, analítica até, e outra, imanente, implicada, imersiva —, então é fundamental que a reconfiguração do espaço cénico exija uma configuração do espaço que acolhe aquele que olha. O dispositivo cénico, o dispositivo arquitetónico, fazer-nos-á dançar a partir de momentos tão distintos do nosso corpo, quando com ele penso, na abrangência que é a do olhar. Ora se dança por entre muros, com os muros, fazendo deles um corpo que passa a ser habitado, no plano em que os corpos dançam, no plano do horizonte, onde os outros corpos embatem no meu. Ora se dança do olho do panóptico, da herança teatral da arquitetónica vertical, de cima para baixo, que oprime a respiração e nos submete a uma visão de cone.

Os muros constituem um limite, um impedimento, um obstáculo, ao livre movimento, uma construção habitualmente sólida e potencialmente impenetrável, que pretende delimitar e proteger territórios e corpos, cuja imagem primeira, em última instância, é a de imobilidade. Sabemos, contudo, quão instáveis e quão móveis poderão ser os muros. A imobilidade dilui-se: «o homem do controlo [é] ondulatório, posto em órbita, num feixe contínuo»[1]. Dança-se, aqui, a problematização desta mesma ideia. Não deixamos de sentir uma espécie de imobilidade, de bloqueio do movimento, ainda que nos desloquemos, ainda que esses muros sejam deslocados. É talvez desse bloqueio que os corpos fogem quando tentam avançar sem avanço espacial. É na incansável procura de alcançar um novo horizonte, um novo mundo que estes corpos parecem debater-se. E, por vezes, esse horizonte parece estar deste lado, do lado daquele que os olha. Um olhar confrontacional está evidente no estacar frontal do corpo que parece, muitas vezes, nos interrogar. Da derradeira instalação de muros, vemos (de cima) corpos a trepar, imaginando que, num mesmo plano horizontal, estes parecem brotar. Num momento de suspensão, detêm-se no cimo desses novos muros, perscrutando talvez um novo horizonte.

Os muros não desaparecem, são arrumados e desarrumados. E a geografia dos corpos dançantes vai-se (in)definindo. Corpos que são também muros. Muros que são também corpos. Corpos ondulantes. E nós, daqui, ora muros, ora horizonte.

A luz apaga-se e nada cai, nem a primeira cortina.




[1] in «Post-scriptum sobre as sociedades de controlo» de Gilles Deleuze

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