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O espaço como dimensão performativa e de relacionamento: o Self
Qua

 

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04


2022
Ensaios

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Beatriz Valentim

— Bailarina e coreógrafa —

O corpo é matéria; ocupa espaço, tem consistência e densidade. Por isso, o corpo inscreve-se e habita estados e espaços. Tal como acontece em relação com o tempo, o ser humano, como ser social, experiencia, vive e age no espaço. 

 

Self, enquanto espetáculo, é esta adaptação do corpo ao espaço. 

 

A escadaria da Casa do Design de Matosinhos é já o terceiro espaço que este espetáculo habita. O primeiro, ainda numa fase muito embrionária, foi o átrio do estúdio 6 do CND – Centre National de la Danse, em Paris (França). 

 

No workshop dirigido por Dimitri Chamblas, no Camping 2020, organizado pelo CND, foi proposto que desenvolvêssemos um solo para habitar um espaço do edifício à escolha. O espaço por mim escolhido (figura 1) foi o hall de acesso ao estúdio onde estávamos a trabalhar no momento. Os sofás azuis despertaram, logo, o meu interesse, dada a sua cor intensa e as suas formas geométricas.


Na altura, em junho de 2021, tendo em conta esta proposta espacial muito concreta por parte do Dimitri – a construção de uma performance para um determinado espaço do CND, de duração indefinida –, assumi que o trabalho deveria partir e organizar-se em torno do espaço. É de salientar também que, perante todo o contexto pandémico, muito presente em 2021, depois de ter escrito um texto sobre o corpo e a sua ocupação social1, fez-me sentido continuar esta pesquisa sobre o espaço e as novas configurações que este estava a assumir. O corpo, habituado à partida a mover-se num espaço amplo, como um estúdio ou um palco, teve aqui de se cingir ao espaço delineado pelos sofás, num formato mais ou menos aleatório encontrado por mim. Após ter improvisado e definido a coreografia, “enfiei-me” dentro dos sofás e procurei adaptar toda a movimentação. O mesmo aconteceu em setembro de 2021, no Festival Interferências, no Palácio Pancas Palha, em Lisboa, onde, uma vez mais, escolhi o espaço antes de passar ao desenvolvimento da peça – em Paris (França), este trabalho foi apresentado numa versão work in progress e a solo. 

Em Lisboa, o corpo voltou a conhecer e sentir outro espaço – ao ar livre, com uma configuração oval e um pouco maior do que o anterior. Sentiu também outra presença, a da Mercedes Quijada, com quem partilho este dueto. 

Atualmente, este espetáculo vai ser apresentado na escadaria da Casa do Design, em Matosinhos (figura 2). 


Este é um espaço muito diferente – amplo, sem a cor azul, com uma diferente disposição de público e, acima de tudo, um local público e de passagem. Toda a abordagem ao espaço é diferente daquela que já experienciámos. 

 

É importante referir que o espetáculo parte do espaço e privilegia-o ao mesmo tempo. O espetáculo é o self (o eu) e o espaço é cada palco, onde se dá esta relação de adaptação e interação. O teatro e as artes performativas são o lugar de relações entre os performers e o público; e destes, com o espaço em que ambos se encontram. 

 

Cada corpo é espaço e tem espaço; produz-se no espaço, enquanto produz esse espaço. A produção de espaço é produção de significado. Podemos dizer então que as dinâmicas do corpo são temporais e espaciais, sendo o espaço mediado entre o self e o mundo – através do espaço, eu entendo e vivo o mundo. No espaço, eu encontro o mundo, e relaciono-me com ele. 

 

Há, em cada corpo, uma sensação única de espaço, e a dança é um ótimo exemplo disso, quer pelo nosso movimento constante, quer pela perceção mais minuciosa da ocupação de espaço que nos é possibilitada.

 

Termino com uma explicação do que é o self, neste trabalho, partindo de uma perspetiva sociológica:

 

self é o corpo e a continuidade da nossa existência; diz respeito à capacidade que temos de nos vermos como um e como um todo, tornando-nos únicos e particulares. O sentido de self é, ainda assim, irredutível à nossa socialidade. O que ocorre no plano do eu e da identidade pessoal interfere no plano social e vice-versa. E porquê? Porque vivemos numa sociedade contemporânea, onde a dinâmica e a influência das instituições e as formas como se rompem hábitos e tradições têm um forte impacto sobre as nossas vidas. 

 

Valentim, B. (2020). O corpo social e o corpo físico: o presente e o futuro in Atos de intimidade: cartografias para uma prática artística. E-book Cadernos da pandemia do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, vol. 1 (no prelo).