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Odete
Sex

 

17

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04

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2026
Odete
© José Caldeira

Odete

life affirming art, já dizia a Barbara Hammer


1.


Pôr-do-sol no jardim do covelo. Primavera. Tudo em flor, incluindo eu. Acabei de sair da escola de teatro. O mundo é uma promessa. Tenho estado há um ano a fazer performances em tudo o que é sítio, de todas as formas possíveis. Hoje, é dia de apresentar algo no jardim, umas leituras, algo simples. Decidira, inspirado nas performances do Bonneville, começar a escrever cartas aos meus artistas preferidos. E hoje era a vez do Van Gogh. Não te rias, caro leitor, nem revires os olhos. Eu estava a desabrochar para a vida, com os meus 18 anos. Era dia de ler cartas para o Van Gogh - e ninguém apareceu.


2.


Noite. Crescer como artista no Porto é decididamente, no meu caso, ser de noite. Seguir as estrelas. Estrelas-faróis no meio da escuridão. Escuridão generativa. Lugares escuros onde eu via performances, onde se lia poesia, onde se fazia teatro. Vivi no Porto do Rui Rio, um Porto sem nada. Um Porto onde tudo o que existia era interconectado em nichos e mais nichos e mais nichos. Cresci a perceber os artistas como formigas, e o círculo das artes do Porto como um formigueiro. Túneis, direções, filas, redes de contacto, apoio mútuo. Todos a trabalhar para o mesmo, porque não havia quem os sustentasse. Versão romantizada, claro está. Mas ainda assim, parecia real quando era novo. Por mero acaso saí do porto, em direção a Lisboa, quando uma formiga-rainha se instalara, ou se revelara: O Rivoli.


3.


Tinha ido para Lisboa estudar com uma bolsa, mas mantinha-me entre as duas cidades. Nesse interstício, fora convidado a apresentar uma performance na primeira edição do DDD. Estava a fazer 19 anos. Até então, as minhas aventuras performativas eram experimentais e caóticas, a rebentar de vontade e paixão pelo que eu fazia. Mas eram sobretudo precárias. Sem dinheiro, sem apoio. Mas nada disso me impediria. Eu queria ser artista e lutaria qualquer dragão que me impedisse - fosse esse dragão a precariedade, uma família, uma instituição, ou eu mesmo. 

Fora convidado a apresentar uma performance na primeira edição do DDD e a primeira coisa que percebi é que, tendo eu praticamente 19 anos e falta de experiência, não me iam dar dinheiro nenhum. Sem conhecimento de negociação, tive que esmiuçar-me e propôr fazer mais (organizar/tocar na festa de abertura e na de encerramento) para que me dessem um valor que até tenho vergonha de colocar aqui. Foi então que me vi na agenda do festival DDD como autor de uma peça a estrear. O sonho começara a realizar-se, ainda que os terms and conditions fossem ambíguos.

Apresentei uma peça na primeira edição do DDD e, como o contexto era o mesmo entre mim e artistas com muito mais orçamento e conhecimento, foi uma…experiência. Eu adoro o que fiz (uma versão experimental do lago dos cisnes) mas senti que a receção foi bem fria*,
*e teria que ser outra coisa, pergunto-me, teria eu que ajustar a minha expectativa, pergunto-me

porque sempre me senti acolhido pela arte - o meu farol, o meu guia. 

fui aprendendo que uma relação passional com a arte pode ser mal vista , que talvez fosse melhor enterrar os sonhos que me guiam, enterrá-los na terra, deixar que a raiz brote em segredo, nas profundezas do solo para que ninguém veja, em portugal ninguém quer ver os teus sonhos, eles são teus, que vergonha, o que interessa é a flor que desponta no final, a flor que se arranca e que serve o seu propósito, a flor que se olha, que bonita, enterra enterra , meu querido, enterra o sonho aqui no nosso solo, que ele será fertil e


, deixando-me apavorado do círculo artístico que se dizia acolhedor. Percebi, pela primeira vez, a dimensão extrativa entre programadores-festivais-artistas


enterra enterra , meu querido,
enterra o sonho aqui no nosso solo, que
ele será fertil e


estás a cuspir no prato de quem te dá de comer


mas a verdade é que eu
era adolescente e todos os outros eram profissionais entre os 30 e os 40. Não quero que isto soe, sequer, a uma crítica. É simplesmente uma reflexão em potência do que pode ser a institucionalização e a sua relação com novos artistas ou práticas experimentais


tomai todos e comei, este é o meu corpo que é partido por vós


No fundo da minha adolescência, eu achava que a arte se fazia para tentar compreender o outro, como uma espécie de forma de comunicação extra-palavra. I was wrong


4.


nem todos os vampiros são -


Amanhecia. A noite promete sempre o seu fim. O sol seguir-se-á à lua. Ele nascerá com toda a força, iluminando tudo o que era mistério. Revelando, revelando, revelando,
o

sol chegava e com ele chegavam mentiras. Rumores sobre mim. Por muito que se tente re-empoderar o rumor, o gossip, a verdade é que nos falta discurso crítico sobre o mesmo. Como ele se torna tóxico dentro de círculos onde o poder serpenteia, como nos círculos artísticos. A competição é um veneno - e a falta de consciência das instituições para a forma como contribuem para esse veneno 
inigualável


Costumo dizer muitas vezes que, quando vou ver um espetáculo, não consenti a ser apanhado numa espécie de networking. A ambiguidade do Poder nas artes é tão assustadora que às vezes mais vale ficar em casa quieto. Mas voltando:


o sol chegava e
com ele chegavam mentiras.


(...)


Conclusão: pessoas de 30-40 anos a espalhar rumores e a falar sobre um miúdo de 19 anos. Percebi aí que


há algo podre no reino da Dinamarca


que, para ser artista no Porto, tinha que aceitar um jogo sufocante.


Percebi que quando há uma espécie de poder centralizado, uma mão única que distribui poder e dinheiro - os artistas à minha volta me virariam as costas. Que as facadas mais dolorosas viriam de dentro do formigueiro.


E porque escrevo isto agora, pergunto-me

estou a acusar alguém, pergunto-me 


5.


Reflito sobre crescer como artista no Porto e, esse início, é doloroso. No sentido em que eu amava (e amo) arte no seu sentido plural, mas vi-me encurralado por um mundo de adultos sem responsabilidade. Começara na escola de Teatro, onde a minha pertença ao tal Teatro ficou logo corrompida pelos abusos na escola. Sobretudo de um professor específico. A humilhação enquanto pessoa LGBT foi tamanha que, no final da escola, eu acreditei que nunca teria lugar no Teatro em Portugal. Um trauma que só recentemente comecei a curar. Vindo desse trauma para os círculos das artes e perceber que os adultos eram tão irresponsáveis e vampíricos foi um choque. Um choque que determinou como me movimento agora. Crescer como artista no Porto é crescer com feridas que nunca ninguém abraçou.
é perceber que o discurso institucional do cuidado é performativo e perigoso. 


As pessoas das comunidades artísticas vivem numa ilusão de que são progressistas, sensíveis, etc, mas na minha experiência, elas revelam diariamente não saber fazer um trabalho interior que sustente a sua ética política. Até recentemente isto se revelou real quando, numa peça em que entrei como ator, ninguém soube lidar ou proteger-me de violência transfóbica. 


e eu engulo, porque eu tenho que ser dócil

e eu engulo, como o professor queria

e eu engulo, porque este texto será a última vez que falo sobre isto
eu engulo, porque já passou e queremos é positividade e que todos nos demos bem e já estamos fartos de pessoas que se queixam


e por isso eu não me queixo

e o senhor professor fará comigo o que quiser

porque eu só quero chegar ao fim do dia


6.


Crescer como artista no Porto é carregar uma solidão da qual ainda não consegui libertar-me. Uma solidão pesada. 

Talvez um dia o sol nasça para estes lados.


e já disse demais.

juro que quando me voltarem a ver
me
verão
com um sorriso na cara.


O texto mantém as opções do autor, tanto no que respeita à variação ortográfica como à sua expressão estilística própria.

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