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performingborders
A relação de performingborders com o DDD tem-se concretizado em torno da escrita e do pensamento crítico em diálogo com a performance e a live art, centrando-se em escritores e artistas cujas práticas são moldadas por experiências vividas de fronteiras internacionais, através do projeto Live Art Writers Network (LAWN).
O programa LAWN deste ano, com curadoria de Xavier de Sousa, Anahí Saravia Herrera e Pedro Vilela, centra-se no papel da performance na cidade e na forma como a escrita crítica pode revelar como essa relação se apresenta e se faz sentir. Assumindo uma visão crítica do potencial transformador da performance, o programa analisa a forma como a performance tem atuado em diferentes territórios para documentar a mudança, a luta e a experiência vivida. Estamos interessados em interagir com estas histórias e em refletir sobre como um festival pode fazer parte de uma cidade que se envolve com a arte como prática cívica.
Partindo da encruzilhada como um espaço para o pensamento não linear, métodos divergentes e investigação entrelaçada (tomando como ponto de partida a performance de abertura do festival, de Renan Martins e do Balé da Cidade de São Paulo) debruçamo-nos, este ano, sobre o arquivo do DDD, investigando histórias e narrativas da sua trajetória, das múltiplas formas como se entrelaçou, foi moldado e vivido nas cidades do Porto, Matosinhos e Gaia, e de como podemos, através dele, olhar para a cidade.
A encruzilhada passa, assim, a ser entendida como um conceito — uma espécie de mirada que nos permite uma aproximação metodológica e/ou pedagógica deste arquivo.
No senso comum, “estar numa encruzilhada” remete a um momento de decisão, em que diferentes caminhos e consequências se cruzam, exigindo escolhas em meio à incerteza. Essa condição tem atravessado o nosso trabalho curatorial, desde que nos voltámos para o corpo arquivístico reunido ao longo de dez anos de festival. Mais do que um obstáculo, a incerteza afirma-se como ferramenta de trabalho.
Nesse contexto, aproximamo-nos da “Pedagogia da Encruzilhada” (1), proposta por Luiz Rufino, que sugere uma ruptura com modelos tradicionais, eurocêntricos e lineares de produção de conhecimento. Inspirada em saberes afrodiaspóricos — especialmente nas cosmologias de matriz africana — esta abordagem mobiliza a figura de Exu (2) como mediador de caminhos, agente do movimento e símbolo de ambiguidade e da transformação. Mais do que uma referência religiosa, trata-se aqui de um princípio epistemológico: o conhecimento não é fixo, mas circula, traduz-se e reinventa-se.
Sem desconsiderar o fundamento afro-diaspórico, cuja dimensão crítica e política procuramos preservar, interessa-nos ativar a encruzilhada como um modo de leitura do arquivo: um ponto de interseção de narrativas, uma dinâmica espiralar de circulação de sentidos, composta por fontes diversas e não hierarquizadas.
O corpo assume, neste enquadramento, um papel central, sendo entendido simultaneamente como campo de poder e como potência de conhecimento. É também atravessado por estruturas politizadas que moldam as nossas experiências. A encruzilhada torna-se, assim, um espaço de mapeamento social, onde os nossos corpos e as nossas vidas são atravessados pelo social e pelo político.
Queremos habitar esta teia e trabalhar a partir daí, no seio desse cruzamento. Assim, a abordagem ao arquivo orienta-se por alguns princípios: a multiplicidade, reconhecendo que não há uma única forma de o compreender; a experiência, a memória e a sensibilidade, convocadas para além do plano estritamente racional; o movimento e a transformação, entendendo o arquivo como algo não estático, mas dependente do tempo e do contexto; e, por fim, a valorização das margens, a partir de saberes historicamente excluídos e de um olhar atento aos movimentos periféricos.
Através de uma experiência de deriva digital, a ser apresentada em maio, em articulação com os textos oriundos do projeto LAWN, propomos abordar o arquivo do DDD, a partir de quatro eixos: os rastros (vestígios, marcas, documentação e fragmentos), os desvios (inconsistências, lacunas e contradições), as travessias (deslocamentos físicos ou metafóricos) e os encontros (pontos em que caminhos se cruzam: corpo com corpo, artista com público, linguagens, culturas e tempos).
Uma encruzilhada, então, de arquivos que convide o público a uma experiência marcada pelas interseções de caminhos, pela negociação de sentidos e pela habitação das complexidades, sem o dever de as resolver. Trata-se de possibilitar a leitura dos materiais a partir de múltiplos ângulos, tanto nas suas afinidades como nas suas fricções, incluindo o não dito, sem a pretensão de alcançar uma resposta final, mas antes de sustentar um movimento crítico contínuo - marca da plataforma performingborders
Notas
(1) Rufino, L. (2019) Pedagogia das Encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial.
(2) Exu é um orixá fundamental nas religiões de matriz africana (Candomblé) e brasileira (Umbanda), atuando como mensageiro entre os seres humanos e os deuses. Considerado como o guardião dos caminhos, encruzilhadas e da comunicação, Exu é "a boca do mundo".
Notas biográficas
Live Art Writers Network (LAWN) é um projeto da plataforma digital performingborders, gerido por Xavier de Sousa e Anahí Saravia Herrera,dedicado a cultivar práticas de escrita crítica e de reflexão em diálogo com a performance e live art, e que se entrelaçam com um pensamento crítico transnacional sobre processos criativos, publicação digital e ação política.
Pedro Vilela é artista-curador-investigador. Desenvolve a TREMA!, associação que conecta artisticamente Brasil e Portugal, e colabora com diferentes estruturas da cidade do Porto. Tem interesse central na cena afro-latino-americana, refletindo temas como a decolonialidade e os dispositivos de racialidade. É ainda o primeiro latino-americano a ganhar a Bolsa Magaly Muguercia, promovida pelo Programa Iberescena.



