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SU8MARINO
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José Caldeira
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não há território sem um vetor de saída do território e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte. Tudo isso acontece nos animais. É isso que me fascina, todo o domínio dos signos. Os animais emitem signos, não param de emitir signos, produzem signos no duplo sentido: reagem a signos [...] E eles produzem signos

Deleuze, Gilles*


Uma linha de corpos que lentamente imerge num solo neutro, obscuro, desconhecido.

Um corpo estranho ao centro.

Um manto cristalino e cintilante.

Um som denso, atmosférico e profundo.



Fecham-se as portadas.



Enquanto a visão se adapta à obscuridade, salienta-se um corpo na penumbra.

O olhar segue um foco, um farol.

Dois membros circundam em torno de si mesmo.

Criam-se marcas arrastadas na matéria terrena.

Uma névoa.



A pouco e pouco, a luz move-se, procura um espaço dentro do espaço, um corpo dentro de um corpo.

Observa-se.

Conhecer o desconhecido manifestado por uma respiração ofegante. A surpresa.

O corpo conecta-se ao espaço ambíguo.



Desagrega-se um outro corpo do peito.

Manipulado de diversas formas.

Regressa ao seu interior e é expelido novamente.

A linha que outrora os uniu é quebrada e deixada naquele ponto.

O corpo (vivo) nómada rasteja e confronta um outro corpo (terreno).

Juntos metamorfoseiam-se num só.

A adaptação dos dois resulta num jogo, numa luta intermitente de territórios, de corpos.

Movimentos bruscos deambulatórios.

Impulsos rítmicos e lumínicos apoderam-se do espaço.

O sufoco.

O corpo abdica do lugar. Desfragmenta-se.

Liberta-se.



Transfigura-se num ser animal.

Com gestos dominantes procura uma outra superfície.

A largada de um é a posse de outro.

Uma outra terra.

Que logo é desmaterializada, derrocada.

Contendo em si as marcas do corpo dominante.

O corpo inquieto ritualiza-se:

Lambe-se.

Esfrega-se.

Incorpora o lugar deixando vestígios no seu próprio corpo.

Lança gritos jubilosos.

Luzes cintilantes, intermitentes, compulsivas.



É a procura.

É o encontro.

É o domínio.



É a ausência.


Territorialização. Desterritorialização. Reterritorialização

Territorialização. Desterritorialização. Reterritorialização

Territorialização. Desterritorialização. Reterritorialização

(…)



Entretanto.

Corpos que se transformam noutros corpos.

Bolhas azuis expelidas pelo corpo.

Linha de cor que submerge e percorre o corpo.

Desagua dentro do corpo.

Alimenta.

Delimitam-se fronteiras.

Escavam-se barreiras.



Corpo estático entre o terreno e o submerso.

Levita-se um manto vermelho.

Embrulha-se num cenário caótico.

Ao longe um sussurro.

Uma ramificação animal no topo do corpo.

Um novo trajeto.



Um novo con(fim).



Su8marino:

É uma reflexão sobre as infinitas possibilidades de territorialização/desterritorialização/reterritorialização.

É um limbo. Uma fuga. É um entre-linhas.

É uma construção de rituais de passagem, procura, encontro e confronto em relação ao desconhecido.

É um cenário de acumulações de signos onde o corpo vagueia pelo tempo e pelo espaço originando uma marca cartográfica oriundo da manipulação, apropriação e desapropriação de vários territórios.



*DELEUZE, G. L’Abecedaire de Gilles Deleuze, entrevista concedida à Claire PARNET realizada em 1988 e transmitida em série televisiva a partir de novembro de 1995, pela TV-ARTE, Paris, videocassete.

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