Qua
17
maio
CELUI QUI TOMBE
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José Caldeira

“…Cair infinitamente é o terror que inspira o espaço o ele ser vazio. Sentirmo-nos despenhar no ar. Tudo ser como o ar como estar no ar.”
[Ana Hatherly, 351 tisanas]

“…Experimentai dar um empurrão a um pensamento: cairá facilmente; mas o que empurra e o pensamento que é empurrado, ambos produzem esse entretenimento que se chama discussão.”
[John Cage, “Conferência sobre o nada”, Silence]

Uma caminhada [em estado arrebatamento] contrariando a maré do movimento, é ou não uma deriva impetuosa? Celui qui tombe conduz uma fraseologia coreográfica súbita, imparável e domesticando-nos enquanto espectadores que não se arredam de suas cadeiras. O contraste é por demais frustrante. Suspende-se o olhar que fica grudado ao palco como imagem única, engolindo figuras que são gente, afinal. Estamos quietos, espera-se isso das pessoas na audiência, e, todavia, tudo está em vertigem à nossa frente. Tudo acontece, desafiando as mais primárias condições de sobrevivência. Celui qui tombe conduz a humanidade para a superação do inevitável, tomado como holístico, sem que todavia cada um perca a sua individualidade, a sua noção de corpo único.

As secções dividem-se num pasmo musical díspare. Abre o Allegretto, 2º andamento da 7ª Sinfonia de Beethoven, num impulso que sacode o pescoço e faz os ombros descerem, espécie de sinestesia memorizada. Os instrumentos de cordas, em intervalos, contínuos e sussurros, interpelam avanços e recuos, endereçam os corpos na plataforma giratória. As cadências direcionam os movimentos, condicionam-se mutuamente. As cordas vão acumulando densidade, entrecortam segmentos, retalham frases; depois avançam numa fluidez que se pensa infindável. A demora de Beethoven finda, cedendo lugar a The Voice que irrompe em cena. Talvez, como nunca antes, se entende porque assim apelidavam Frank Sinatra. Estrondosa voz a dirigir gestos, rostos que circulam, numa espiral que se desfaz e reconstrói inexoravelmente. Depois, os silêncios que circundam as respirações, o arrastamento do ar pela fricção dos mecanismos de cena – o quadrado.

O quadrado, em que o homem de Vitrúvio se aquietou, procurando inscrição no círculo, busca pelo sagrado. Eis o mito do eterno retorno, como assinalou Octavio Paz. Na quase perpetuum mobile as frações do tempo tornam-se paradoxais: a linearidade do trajeto humano é combatida pelo arco temporal que se fecha e debate, sendo linha de um desenho sem fim. O quadrado comporta um centro desenhado em forma de círculo, donde irradiam linhas oblíquas numa intenção centrífuga. É quase um desenho de mandala que se associa aos sinais visuais simples – mas compósitos – presentes em peças de cerâmica, motivos de valência decorativas mas avançando para ocupar seu lugar num pensamento visual que é intemporal e a-geográfico. Ou seja, transpondo territórios e cronologias fechadas. Correr, inclinar-se segurando o espaço e o tempo, eis como cada um dos protagonistas desta fábula humana de superação assimila a grande vocação de transcender o medo e o mundo. O mundo afinal foi plano durante Celui qui tombe. Contrariando a determinante esférica da terra e de seus mundos, Yoann Bourgeois espalmou o chão ainda mais. Sem capacidade de se tornar espesso, até que os dispositivos de cena levantam o solo e procuram redefinir-lhe uma direção em queda. Os bailarinos procuraram superar os protagonistas de Le Radeau de la Méduse de Théodore Géricault (1818-1819) ou, mesmo, aqueles que persistem a remar em Le Naufrage de Don Juan (ou la Barque de Don Juan) por Eugène Delacroix (1841). Numa versão mais próxima da nossa datação, o quadrado espalmado do mundo, emite e repercute as tragédias das migrações forçadas, em prol da subsistência. As forças giratórias existem nas artes cumprindo propósitos. Automaticamente, evoquei a instalação Abajur, vista em finais de 2013 no Museu de Serralves, autoria de Cildo Meireles (exposta em 2010 na Bienal de São Paulo, quanto me lembro). O impulso do mundo que se vê incessante na gula europeia de novos territórios, sob consignação de objeto em escala monumental, movido pela força motriz de 4 homens e o vento que se imagina. Com o devido distanciamento, tornou-se a imagem dessa obra do artista brasileiro, algo de pregnante, ainda que contrariador da coreografia em causa. A queda cessa quando os pés agarram o chão de tal forma que é insuportável, sacudi-los.

Os pés aterram-se e enterram-se numa ilusão de leveza e fruição que entontece o espectador sentado. Durante a visitação que Celui qui tombe nos proporciona, magicamente, a irreversibilidade da vida coincide com sua redenção e queda. Em mesmidade impossível, quanto os corpos dos bailarinos furam o vento, a deslocação que a si mesmos provocam ou que um demiurgo mecânico lhes dirige, sorrindo. A ironia dos saltos improváveis repete-se num ritmo alucinante, de modo a que a last survivor não pise os que caíram e se quedam. A corrida é compulsiva, uma gula debatida com a inevitabilidade da queda ainda que antes de soçobrar [ou precisamente porque se sabe que vai estatelar-se], a tenacidade converte-se num ex-libris partilhado entre todos.

Afinal - e sempre, o mito da queda é literal, sucumbindo embora à instantaneidade do obrigatório, do catastrófico. É o pânico de cair no abismo ao mesmo tempo que seja empurrada a cair no abismo, por mão de Ulisses…parafraseando Clarice Lispector em “Luminescência”, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.
Há que dar a ver [Paul Élaurd dixit] aquilo que se pensa não ser possível. Celui qui tombe trata da impossibilidade, ainda que tomada como dogma institui-se em vontade de poder (conivência ambígua, familiarizada com Nietzsche). Os bailarinos, ancorados nos malabarismos de resistência, contrariam as formas atávicas que consolidam quaisquer instâncias de estagnação; transfiguram a mediocridade epigonal, que sabemos, subsiste em algumas forças míticas do contemporâneo.
“…ameaçam-me
ameaçam ferir-me
fazer-me tropeçar, cair, soçobrar…”
[Ana Hatherly, “As palavras-objectos”, O Pavão Negro, 2003]

Não existem pontapés no [ao] mundo, tão apenas elevação. Resistir e ficar suspendido pela deslocação do ar que é um colchão de existência provável – sem movimento próprio [como vemos em algumas sequências frásicas da peça]. Os corpos inclinam-se como velas que atravessem mares sem que a tempestade atolasse a consciência do individual, pois que em Celui qui tombe, quem cai não é sozinho, é o resistente por excelência que persiste na fruição projetada/introjetada de cada um e, incondicionalmente, a querer solidarizar-se, a superar-se entre todos. É o remanescente.

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