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DDD 2023: entrevista com Lia Rodrigues
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DDD 2023: entrevista com Lia Rodrigues
Sammi Landweer

Encantado é “uma das ficções possíveis sobre o Brasil”

A coreógrafa brasileira partilha o processo de criação do espetáculo de abertura do DDD 2023, Encantado, e fala sobre o Brasil atual, no momento em que o país celebra o bicentenário da Independência. Ode dançada à cultura afro-indígena, Encantado é, segundo Lia Rodrigues, “uma das ficções possíveis sobre o Brasil”, em contracorrente com o legado colonizador.

Na sua última criação, Encantado, qual a ligação entre as entidades “encantadas” e a questão ambiental, que é tão relevante hoje, não só, mas particularmente no Brasil?
Encantado nasceu do desejo de usar magia e encantamento como guias para o nosso processo criativo. Como encantar as nossas ideias e os nossos corpos, transformando-os em imagens, danças e paisagens? Na cultura afro-indígena do Brasil, “encantado” designa também uma entidade entre os mundos dos vivos e dos mortos, uma entidade que se encontra na natureza. Encantado é como outra visão possível do mundo: uma visão não ocidental e não eurocentrica. É uma das ficções possíveis sobre o Brasil.

Todos os seus bailarinos são também cocriadores. Como se estabelece esse diálogo entre a sua visão de coreógrafa e tudo aquilo que eles trazem para a peça?
Começo a pensar e a trabalhar numa nova criação pelo menos 2 anos antes. É um longo processo solitário de leituras e de pesquisa. Faço anotações, escrevo. De uma criação à outra há sempre descobertas, as circunstâncias mudam, temos novos “problemas” para resolver e as experiências que vivemos, com as quais dialogamos, vão nos alterando. Tudo isso me mobiliza antes do encontro presencial com os artistas que farão parte da criação. Quando nos encontrámos (os 11 bailarinos, a minha assistente e eu) para começar a trabalhar, em abril/maio de 2021, já tinha algumas pistas e caminhos que gostaria de seguir; já tinha preparado algumas imagens e textos para começarmos a trabalhar.
Era uma criação muito diferente porque tínhamos de seguir protocolos de distanciamento e de uso de máscaras, para além de testes semanais. E todos estávamos muito preocupados com a enorme crise sanitária que o Brasil estava (e está) a atravessar por causa do Covid 19. Quando o Encantado foi criado, o Centro de Artes da Maré, onde ensaiávamos, também funcionava como local de armazenamento de alimentos, água engarrafada, produtos de higiene e limpeza, e equipamento de proteção pessoal a ser distribuído às 17.000 famílias da região que vivem em extrema pobreza. Ao mesmo tempo, os trabalhadores estavam a mudar o nosso telhado e a instalar energia solar como parte do nosso plano para fazer do Centro de Arte um edifício sustentável. E apenas uma fina cortina de tecido nos separava de toda esta atividade. Foi uma coexistência muito íntima com ações concretas durante a pandemia. Assim, penso que o Encantado foi atravessado por todas estas ações.
Vejo 3 partes nesta criação que relacionam de certa forma os diferentes momentos da pandemia: a primeira parte os artistas são separados e sem contacto; a segunda parte começam a formar alguns duos, trios e quartetos e finalmente, no final da criação, quando todos foram vacinados, é uma dança coletiva com todos juntos e muito próximos.
O mais importante, a meu ver, é a capacidade que um trabalho de dança tem de revelar impasses, de revelar os pontos doloridos – mais do que curá-los. Cada artista vai criando suas ideias, quadros, danças, situações. É um processo fragmentário que vai ganhando corpo e sentido próprios ao longo do tempo. E, para que ganhe corpo, é preciso estar mobilizado, mergulhado nas questões que vão surgindo. Quando estamos nesse estado de concentração as ideias podem ser abundantes. A construção de cada trabalho tem seu método próprio e sua história, sua bibliografia. Uma colagem de imagens, conversas, improvisações, filmes, vídeos, fotografias, pinturas e textos, tudo disposto um elemento sobre o outro, ou mesmo contra o outro, num fluxo de conexões e associações. Mas essa passagem desse estado para a dança em si não é nada simples, demora um certo tempo. Nunca sigo uma linha clara. Tudo está lá, tudo flutua ao nosso redor, e vou procurando maneiras de fazer um bordado que seria o espetáculo. Trabalho também em parceria coma dramaturga Silvia Soter, que me acompanha desde 2002. Além do consultor artístico Sammi Landweer, que trabalha também nas imagens, fotos e filmes. A maior parte dessa pesquisa funciona como gatilho para a criação. Uma pequena parte é efetivamente incorporada à cena, mas as descobertas ficam com você. Como artista você não sai imune. A experiência, é algo que contamina. É importante que os artistas que estão fazendo parte do processo criativo compreendam o projeto que venho desenvolvendo há quase 20 anos na Maré em parceria com a Redes da Maré. Entender que a criação acontece nesse lugar e ela só é possível dessa maneira por estar mergulhada nesse longo trabalho de parceria e também no longo trabalho de mais de 30 anos da companhia. A criação vai estar sempre imersa nessa história. Tento sempre deixar isso bem claro para cada artista que trabalha comigo.

Parte da música que se ouve no espetáculo é o registo de um protesto indígena. Quão importante foi a música nesta criação?
Em várias criações anteriores, como em Fúria (2018), não sentia falta de trabalhar com uma música. Escolhi trabalhar com sonoridades produzidas pelos artistas e pelos materiais que manipulávamos. Em Encantado, improvisamos com muitas músicas diferentes, inclusive com a Sinfonia Pastoral, de Beethoven. Depois, mais adiante, o canto de 4 mulheres da etnia Huni Kuin do norte de Brasil nos inspirou. Finalmente, entendi que a peca precisava de um suporte rítmico. Trabalhei como o músico Alexandre Seabra e buscamos algumas sonoridades. Ele gravou o som de um maraca (um dos instrumentos indígenas mais conhecidos, sendo seu nome usado como uma designação genérica para chocalhos) e trabalhamos com algumas vozes também. Depois pesquisamos sonoridades e encontramos trechos de músicas do povo Guarani Mby, cantadas e tocadas durante a marcha de povos indígenas em Brasília em agosto e setembro de 2021 contra o “marco temporal”, uma medida inconstitucional, que prejudica o presente e o futuro de todas as gerações dos povos indígenas. Usamos 30 segundos de momentos diferentes dessa manifestação em looping. Esses trechos foram trabalhados e mixados pelo Alexandre.

A sua companhia está há vários anos sediada na favela da Maré, no Rio de Janeiro. O que é que o trabalho com essa comunidade lhe traz enquanto cidadã e artista?
A minha posição atual é sem dúvida fruto de toda uma história de escolhas e militância como artistas e cidadã. Trabalho profissionalmente com dança desde os meus 17 anos, isto é, há quase 50 anos pois estou nos meus quase 67 anos de idade. Crie e dirigi um dos principais festivais de dança do Brasil, o Panorama da Dança. Criei minha companhia de dança em 1990. Desde 2004 que ela está sediada na favela da Maré, no Rio de Janeiro, onde desenvolvo projetos artísticos e pedagógicos em parceria com a Redes da Maré.
Essa parceria deu origem ao Centro de Artes da Maré, em 2019, e à Escola Livre de Dança da Maré, em 2011. Aprendi imensamente nesses quase 20 anos de convívio e parceria com a Redes da Maré. A realidade do local onde trabalhamos tem uma influência decisiva em nossos modos de criação e produção. Isso se aplica a uma favela no Rio de Janeiro, como em qualquer outro lugar do mundo. Trabalhar numa das maiores favelas cariocas (140.000 habitantes), um lugar em que a precariedade e a instabilidade resultantes de desigualdades econômicas e sociais estão sempre presentes, com certeza afeta os nossos corpos e a maneira como organizamos nossas ideias. Como responder esteticamente a tudo isso? O palco é o local do nosso discurso estético e político. Procuro articular a criação de uma obra de arte com a construção de um território e as condições para a sua sobrevivência.  Além de estratégias para que nosso trabalho artístico possa ir ao encontro dos habitantes da Maré e do público de outras partes da cidade. E, ao mesmo tempo, a favela traz a possibilidade de interagir com culturas e modos de ser muito ricos e diferentes: modos de funcionar, de criar, de se organizar. Acredito que todas as nossas ações no mundo são políticas. Em minhas ações como artista e como cidadã procuro equilibrar uma mistura de utopia e pragmatismo. Os projetos que desenvolvo na favela da Maré em parceria com a Redes da Maré desde 2004 são parte integrante  do meu trabalho, do meu pensamento, da minha militância. Não consigo separar do meu processo de fazer arte. Eles me transformam como pessoa, como artista e como cidadã. É o que faz sentido, politicamente, para mim. Ali encontro pessoas e projetos que me fazem ter esperança, mas uma esperança combativa.

Quando olhamos para a situação atual do Brasil é inevitável pensarmos uma parte dos problemas como legado da colonização. Como se posiciona sobre essa questão no momento em que o país celebra o bicentenário da Independência?
As invasões europeias nas Américas, desde o século XVI, foram nefastas com o genocídio dos povos indígenas e a escravização e trafico de indivíduos africanos. O Brasil ainda hoje não conseguiu tratar do legado dessa tragédia que foi a colonização. A escravidão e o preconceito resultante dela permanecem presentes e ativos na sociedade brasileira gerando efeitos devastadores. A crise sanitária da Covid-19 mostrou as circunstâncias precárias em que vive a maioria dos brasileiros. Estamos agora mais do que nunca confrontados com a profunda desigualdade social e a violação dos Direitos Humanos que marcam o passado e o presente de nosso país. O Brasil é um país extremamente racista, onde há um genocídio de pessoas negras, trans e indígenas e uma taxa extremamente alta de feminicídio. O governo brutal do atual presidente usa discursos e ações odiosas, notícias falsas, violência e destruição. O governo e seus apoiantes desrespeitam os valores democráticos e promovem a destruição da Amazônia, do Pantanal, do Cerrado e a matança dos grupos vulneráveis da população. Eles desrespeitam a vida. Para os artistas brasileiros, a situação é catastrófica. Houve muitos momentos na História em que livros foram queimados, obras de arte consideradas degeneradas e artistas perseguidos. No Brasil, vivemos um desses momentos de escuridão. Este governo declarou guerra à arte e à cultura. Não há investimentos ou subsídios e os artistas são alvos pessoais do governo. Peças, espetáculos de dança, filmes e exposições são censurados. É assim que funciona o fascismo: intimidar, censurar, matar a liberdade de expressão. Mas a arte resiste, os artistas resistem, e eles se unem a tantas outras vozes e ações da sociedade civil que resistem. Basta olhar para a diversidade estética e política que ocorre no Brasil, os festivais e exposições de artes cênicas também são muito vivos e ativos. Mas não há dúvida de que há uma necessidade urgente de investimento efetivo e sustentável das instituições em artistas e criadores de teatro, dança, circo, música, artes visuais e em seus projetos criativos. Esperamos que Lula seja nosso próximo presidente!

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