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Minor matter não é um pormenor insignificante
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1.
Krzysztof Kieślowski ofereceu-nos, sequencialmente, os filmes Azul (1993), Branco (1994) e Vermelho (1994). Os três filmes constituíam as Três Cores (Trois Couleurs). Na última década do séc. XX, as gerações “entre tempos de dois fim-de-século” dissimulavam-se, mergulhando em derivas que glosavam uma certa recherche du temps perdu [Marcel Proust] em direção acelerada até ao fim do mundo [Wim Wenders]. Coube dialetizar ainda que poetizando, e em termos mitíco-simbólicos, as credenciais acrónicas da Europa em convulsão.

2.
A sequência de cores assegurada por Ligia Lewis é diferente. Aguarda-se que o Branco apareça no Outono deste ano, depois do Azul ser Sorrow Swag (2014) e o Vermelho ser Minor Matter (2016).

3.
As cores da bandeira francesa, na Trilogia do realizador polaco, incorporavam respetivamente as três palavras-chave da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

4.
As cores da bandeira da Republica Dominicana são essas mesmas, onde muito provavelmente os mesmos conceitos se adensam convergindo em um que assinale a aniquilação, a erradicação do racismo – nas suas diferentes aceções. As palavras inscritas na bandeira dominicana são: Dios, Patria, Libertad.



5.
A palavra comum é “liberdade”.



6.
As duas peças coreográficas, da coreógrafa de origem dominicana, se estrearam no contexto da proposta trilogia cromática em revisão iconoclasta quase. Concebidas para set de bailarinos específicos, assumem em si o mundo que nunca se conteve e satisfez com três cores: questionam-se raças, sexos, géneros, ideologias; agridem-se dogmatismos e dividem-se causas extremas, tomando a consignação do impulso cinético - as cores regimentadas empreendem um litígio mitológico para os tempos atualizados.

7.
Em Minor Matter, 3 bailarinos digladiam-se a amam-se, em resiliência e dissolução alternadas, três bailarinos. Em Sorrow Swag – “anatomy of melancholy” debatia-se um bailarino branco e as intertextualidades a dissecarem a dor – sob auspícios de releitura dos dramaturgos Jean Anouilh e Samuel Beckett.

8.
A imagética da figura humana – nas artes expressivas / artes performativas - depende e dirige a conceptualização convicta; devia respeitar a diversidade da pessoa humana individuada, assim como qualquer consignação gregária.

9.
Quando três bailarinos se confinam a um espaço cénico [que se assemelha a uma caixa sem redoma] as paredes parecem alimentar-se deles. Há que tê-las em consideração. Há que vigiar o espaço que seja tão antropofágico, continente a precisar de conteúdo.

10.
Em condição ou estado de fragmentação tripartida (ou será de submissão?), a revolução dançante dos 3 bailarinos converte o espaço em arena ou de ringue. Ziguezagueando, atravessando diagonais e paralelas, as perpendiculares entretecem-se e revelam constructos ideológicos quase maniqueístas.

11.
Os corpos dos bailarinos oscilam entre predominarem como figuras representacionais e carne para frente de batalha. Questionam entre veemências e fracassos as mentalidades atávicas e os dogmatismos obsoletos – tão tragicamente reincidentes.

12.
Os sucessivos Rounds da peça coreográfica assumem uma autoridade estética que é preservada por tópicos identitários profundos, insinuando-se, jogando-se em termos prospetivos. Contaminam ou insinuam, atingem a exterioridade que a sociedade não pode mais negligenciar.

13.
Os corpos protagonizam rituais de culto e, ao mesmo tempo, são lugares de culto, a sobressaírem, a desgrudarem-se do espaço. Exibem-se dançantes em todos os pequenos detalhes de suas intervenções. Querem aplacar as forças e os fenómenos inexplicáveis, celebrando a vontade de domínio que quase sozinho Nietzsche exaltou.

14.
Porque o corpo é lugar de iniciação, repetindo-se de geração em geração suas atuações, seus gestos e movimentos equívocos.

15.
À semelhança da presença do corpo vivo que é atravessado pelos seus interlocutores, a luz bate e expande-se indomável.

16.
Os três corpos dançantes, gerados e geradores de polémicas aparentemente mudas, afinal gritam e arredam-se da recorrência, dos estereótipos.

17.
Sob registo e dispositivos humanizadores que se sucedem, sobreponha-se o pensamento sobre a sedução ou magnetismo visual que poderia ser um mais confortável punctum em estado de receção estética. Minor matter é um assunto muito sério e nada menor ou ínfimo.

18.
Entre nostalgia do tempo edénico que nunca se conheceu de fato; entre a melancolia que a luta acalenta quando cessa; entre as linhas de luz que agarram a sua própria propagação, lembro-me da etérea densidade intersticial das Tteias de Lígia Pape [instalações artísticas constando de fios brilhantes fixados em espaços fechados e de pouca iluminação, projetos concebidos e implementados a partir de finais dos anos de 1970]. É a luz [afinal] que nos permite ver cores e pensar que estas são matérias perenes; quando, mais justamente são i-matérias de sedução ontológica e crítica – no caso de Minor matter – como já acontecera na sublimidade e inquietude de Sorrow Swag.

19.
Os feixes de luz transparecem e permitem que os bailarinos [e nós] vençam a opacidade ilusória [tautológica] que, nos nossos olhos queira imperar. Os corpos dançantes dos bailarinos constroem as cores, absorvem a luz, o conhecimento.

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