MENU

SIGN IN

X

Are you an artistic programmer and would like to be at DDD - Festival Dias da Dança 2022? This is an area where we provide the entire programme, useful information and keep in touch. Join us!

LOG IN

If you don't have an account yet, click here to access the registration form.

Minor matter não é um pormenor insignificante
Tue

 

08

.

05


2018
Não é uma crítica

PARTILHAR:

MORE 

Não é uma crítica
Minor matter não é um pormenor insignificante

Fátima Lambert
— Professora da ESE / IPP, curadora independente —

1.
Krzysztof Kieślowski ofereceu-nos, sequencialmente, os filmes Azul (1993), Branco (1994) e Vermelho (1994). Os três filmes constituíam as Três Cores (Trois Couleurs). Na última década do séc. XX, as gerações “entre tempos de dois fim-de-século” dissimulavam-se, mergulhando em derivas que glosavam uma certa recherche du temps perdu [Marcel Proust] em direção acelerada até ao fim do mundo [Wim Wenders]. Coube dialetizar ainda que poetizando, e em termos mitíco-simbólicos, as credenciais acrónicas da Europa em convulsão.

2.
A sequência de cores assegurada por Ligia Lewis é diferente. Aguarda-se que o Branco apareça no Outono deste ano, depois do Azul ser Sorrow Swag (2014) e o Vermelho ser Minor Matter (2016).

3.
As cores da bandeira francesa, na Trilogia do realizador polaco, incorporavam respetivamente as três palavras-chave da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

4.
As cores da bandeira da Republica Dominicana são essas mesmas, onde muito provavelmente os mesmos conceitos se adensam convergindo em um que assinale a aniquilação, a erradicação do racismo – nas suas diferentes aceções. As palavras inscritas na bandeira dominicana são: Dios, Patria, Libertad.



5.
A palavra comum é “liberdade”.



6.
As duas peças coreográficas, da coreógrafa de origem dominicana, se estrearam no contexto da proposta trilogia cromática em revisão iconoclasta quase. Concebidas para set de bailarinos específicos, assumem em si o mundo que nunca se conteve e satisfez com três cores: questionam-se raças, sexos, géneros, ideologias; agridem-se dogmatismos e dividem-se causas extremas, tomando a consignação do impulso cinético - as cores regimentadas empreendem um litígio mitológico para os tempos atualizados.

7.
Em Minor Matter, 3 bailarinos digladiam-se a amam-se, em resiliência e dissolução alternadas, três bailarinos. Em Sorrow Swag – “anatomy of melancholy” debatia-se um bailarino branco e as intertextualidades a dissecarem a dor – sob auspícios de releitura dos dramaturgos Jean Anouilh e Samuel Beckett.

8.
A imagética da figura humana – nas artes expressivas / artes performativas - depende e dirige a conceptualização convicta; devia respeitar a diversidade da pessoa humana individuada, assim como qualquer consignação gregária.

9.
Quando três bailarinos se confinam a um espaço cénico [que se assemelha a uma caixa sem redoma] as paredes parecem alimentar-se deles. Há que tê-las em consideração. Há que vigiar o espaço que seja tão antropofágico, continente a precisar de conteúdo.

10.
Em condição ou estado de fragmentação tripartida (ou será de submissão?), a revolução dançante dos 3 bailarinos converte o espaço em arena ou de ringue. Ziguezagueando, atravessando diagonais e paralelas, as perpendiculares entretecem-se e revelam constructos ideológicos quase maniqueístas.

11.
Os corpos dos bailarinos oscilam entre predominarem como figuras representacionais e carne para frente de batalha. Questionam entre veemências e fracassos as mentalidades atávicas e os dogmatismos obsoletos – tão tragicamente reincidentes.

12.
Os sucessivos Rounds da peça coreográfica assumem uma autoridade estética que é preservada por tópicos identitários profundos, insinuando-se, jogando-se em termos prospetivos. Contaminam ou insinuam, atingem a exterioridade que a sociedade não pode mais negligenciar.

13.
Os corpos protagonizam rituais de culto e, ao mesmo tempo, são lugares de culto, a sobressaírem, a desgrudarem-se do espaço. Exibem-se dançantes em todos os pequenos detalhes de suas intervenções. Querem aplacar as forças e os fenómenos inexplicáveis, celebrando a vontade de domínio que quase sozinho Nietzsche exaltou.

14.
Porque o corpo é lugar de iniciação, repetindo-se de geração em geração suas atuações, seus gestos e movimentos equívocos.

15.
À semelhança da presença do corpo vivo que é atravessado pelos seus interlocutores, a luz bate e expande-se indomável.

16.
Os três corpos dançantes, gerados e geradores de polémicas aparentemente mudas, afinal gritam e arredam-se da recorrência, dos estereótipos.

17.
Sob registo e dispositivos humanizadores que se sucedem, sobreponha-se o pensamento sobre a sedução ou magnetismo visual que poderia ser um mais confortável punctum em estado de receção estética. Minor matter é um assunto muito sério e nada menor ou ínfimo.

18.
Entre nostalgia do tempo edénico que nunca se conheceu de fato; entre a melancolia que a luta acalenta quando cessa; entre as linhas de luz que agarram a sua própria propagação, lembro-me da etérea densidade intersticial das Tteias de Lígia Pape [instalações artísticas constando de fios brilhantes fixados em espaços fechados e de pouca iluminação, projetos concebidos e implementados a partir de finais dos anos de 1970]. É a luz [afinal] que nos permite ver cores e pensar que estas são matérias perenes; quando, mais justamente são i-matérias de sedução ontológica e crítica – no caso de Minor matter – como já acontecera na sublimidade e inquietude de Sorrow Swag.

19.
Os feixes de luz transparecem e permitem que os bailarinos [e nós] vençam a opacidade ilusória [tautológica] que, nos nossos olhos queira imperar. Os corpos dançantes dos bailarinos constroem as cores, absorvem a luz, o conhecimento.

Digital Product by BondHabits