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RESISTÊNCIA como palavra – passe
Sex

 

15

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06


2018
3 Danças de Ideias

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3 Danças de Ideias
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Maria João Guardão

— Jornalista e Realizadora —


O primeiro sol deste longo inverno tirou os calções e os fatos de banho do armário e encheu de gente a beira-mar de Matosinhos, mesmo a tempo do segundo fim de semana DDD. À sombra de uma longa mesa estendida no Lais de Guia, recheada de águas frutadas, scones, crumbles e outras delícias de chorar por mais, juntámo-nos para conversar. Fomos uma geometria variável e crescente – começamos por ser uma dúzia e no fim éramos quase 20 – com três espetáculos no meio de nós: "Um(unimal)", de Cristina Planas Leitão, "From afar it was an island", de João Fiadeiro e "Ensaio para uma cartografia", de Mónica Calle. Ao prazer da reflexão em voz alta juntamos uma palavra-passe para iluminar o caminho – resistência. É um conceito tema que percorre estas 3 obras e que nos há-de guiar nos cruzamentos e nas bifurcações com que nos deparamos ao atravessá-las. Regressamos muitas vezes a um espectáculo por um atalho diferente, através de proximidades aparentes ou inesperadas com outro; encontramos linhas de separação em modos de fazer e pensar com origens semelhantes. Conversamos em espirais que se intersectam, daí o aviso à navegação: a partir de agora, o texto divide artificialmente o que andou sempre misturado e sintetiza o que nasceu espraiado.


“A obra de arte oferece-se para ser imaginada”, escreve João Fiadeiro na apresentação do trabalho que estreou no festival, e foi com esse impulso que começámos: há quem não tenha conseguido ver todos os 3 espectáculos chamados para este debate e isso implica, para início de conversa, uma partilha da experiência dos que foram espectadores. E contar estes espetáculos é re-imaginá-los em comum, é espoletar outras maneiras de os pensar - um trabalho de questionamento que está na raiz do nosso conceito guia. Na sua ontologia, o trabalho artístico constrói-se na resistência ao discurso único, opõe-se à visão hegemónica da verdade absoluta tanto quanto resiste à uniformização e banalização das questões que nos suscita. É outra coisa. É um desafio à percepção linear que o trabalho de montagem coreográfica de From afar... e o seu espaço cénico corporizam numa estrutura que bem pode ser uma ilha, mas é sobretudo um dispositivo cheio de dobras, que revela e esconde o que tem dentro e quem tem dentro - intérpretes com ações aparentemente desconexas umas das outras, nomes e línguas que vão mudando, em espaços que também se alteram, numa ocupação que recusa a linearidade da horizontal e inventa a verticalidade (de uma varanda, por exemplo), numa paisagem aparentemente limpa mas cheia de tralha, afinal. “No início não se vê nada e depois, à medida que a peça se desenrola, vão aparecendo coisas, objectos que estavam escondidos por essas pequenas ondulações, por essas fissuras no plano”, diz alguém. Traz-se para a mesa o processo de construção – a partir de cenas de filmes com gestos em comum, revelou o coreógrafo –– uma montagem cinematográfica que constrói não um sentido narrativo mas um sentido coreográfico. Alguém questiona: “a Composição em Tempo Real, ponto central da prática do João Fiadeiro, onde está?”. Alguém outro responde, perguntando: “Não será precisamente isto? No sentido em que há falhas, obscuridades, lapsos? E uma resistência constante à linearidade?”


Todos os dias tentamos fazer sentido do mundo fragmentado que nos rodeia e também aqui procuramos um fio condutor para nos agarrarmos. Mas o objecto artístico resiste e lança a sua complexidade ao espectador emancipado a que faz apelo.


Resistência: força pela qual um corpo reage contra a ação de outro corpo – diz o dicionário. A definição podia iniciar a sinopse de UM (Unimal), de Cristina Planas Leitão, peça em que uma intérprete, sozinha em palco, reage às instruções da coreógrafa, instalada na régie que encima a plateia. O lugar do público também é crucial: a esta mesa há quem se tenha sentado quase ao lado da coreógrafa, percebendo os comandos sussurrados (e transmitidos via sistema in ear durante quase toda a peça), e há quem ocupasse a primeira fila, com a atenção focada na intérprete e surdo às instruções transmitidas. O que é que muda?, discute-se. Neste espaço cheio de possibilidades inscreve-se um gesto inicial paradoxal: ordens expressas e audíveis submetem a intérprete a várias ações – andar, despir-se, maquilhar-se, vestir-se, colocar o in ear – enquanto a iconografia convoca a figura da mulher emancipada e poderosa – o fato-armadura, a maquilhagem a remeter para a unicelha de Frida Khalo ou para a androide rebelde de Blade Runner. E a partir daí? Que relação se estabelece entre intérprete e coreógrafa? Serão as instruções cumpridas? Quando começa a oposição? “Eu acho que ela se emancipou a partir de determinada altura”, lança alguém, abrindo a conversa ao significado dessa acção. Há reacção ou coreografia? O que é autoria? “Faz parte da natureza humana resistir a uma sequência de ordens”, avança-se. Quando se quebra a explicita capacidade física da intérprete, quando a oposição, ou o cansaço, desequilibra e desfaz o gesto perfeito do corpo máquina, quebra-se o quê, dá-se a ver o quê? A humanidade?


A marcha-dança imparável de Cristina Planas Leitão e Daniela Cruz faz disparar várias questões e reenvia tanto para a história da resistência e afirmação no espaço público quanto para a literalidade das ruas de hoje e para movimentos como #metoo. Aqui, como em outros pontos do caminho, cruza-se com Ensaio para uma cartografia, de Mónica Calle, em que quase duas dezenas de atrizes profissionais apontam a duas formas clássicas de dificuldade explícita – a orquestra e o corpo de baile – com o Bolero, de Ravel, por fio condutor e a nudez como figurino. “A encenadora chama-lhe um hino da resistência”, diz-se, relembrando as palavras de Calle no início da peça, a ênfase no ato de re-ligar (onde nasce a religião), de fazer comunidade, de criar laços entre a comunidade de intérpretes - num projeto que começou em 2014 e vai prolongar-se até 2021, num ato de resistência ao efémero, à imprevisibilidade e fragilidade do fazer artístico em Portugal. “É interessante perceber o caminho que cada uma das artistas faz dentro da peça ao longo dos anos”, avança alguém. Outro sublinha a ligação com o público, expressa na última frase do discurso de Mónica: “Se em alguma altura esta ligação se perder – e vocês estiverem a olhar para o telemóvel ou saírem – podem crer que a culpa foi nossa”. Alguém traz para a mesa a espectadora de cabelo grisalho que, de pé e dançando, incentivou as artistas na sua dança final. “Há aquela relação de frontalidade que estabelece logo a comunicação com o público. A quarta parede está constantemente a ser quebrada”, sublinha-se, juntando aqui os intérpretes de Fiadeiro a saltarem para o palco ou Planas Leitão a transmitir as suas instruções na plateia.


Há algo de paradoxal nesta comunidade – 16 atrizes profissionais que, como amadoras, se propõem fazer algo de extremamente difícil e virtuoso, como andar em pontas ou tocar um violino, fazendo da tentativa e do erro uma forma de ligação. E esse discurso inicial é também sobre isso. Sobre a necessidade do erro. Só falhando juntas se consegue a superação, juntas. A falha faz parte da superação. “Há o filósofo que diz eu sou humano e nada do que é humano me é estranho. Daí nós entendermos perfeitamente o sucesso e o fracasso. Todos nós já falhámos e vamos continuar a falhar. É como se a peça falasse uma linguagem universal”, reflete alguém. “A falha é parte integral de qualquer fazer; é impossível chegar a qualquer lado sem falhar e sem recomeçar” – junta outra.


Ensaio... é uma obra sobre recomeços, concordamos. É uma dança e uma marcha, com várias linhas de pensamento que se vão tornando visíveis na sua repetição e duração. “Na verdade não há ali uma repetição, é uma repetição-variação: os corpos nunca conseguem repetir da mesma forma”, conclui alguém. A repetição é afirmação de uma resiliência que, na fragilidade, nos constrói: é uma busca do gesto certo enquanto resistência ao virtuosismo, a afirmação do corpo massacrado e sofrido que se opõe ao corpo sem peso e sem (aparentes) mazelas do ballet clássico, que é capaz de voar, de não obedecer à lei da gravidade - o corpo transcendente, o não-corpo. A falha, aqui, como a desobediência em Planas Leitão, é a afirmação do humano. Discute-se a nudez também como resistência ao padrão de beleza uniforme. “São 18 mulheres e 18 corpos tão diferentes. E essa é mais uma leitura para mim, dentro do enquadramento feminino e da nossa relação com o corpo, que é complicada. E a certa altura elas já não estão nuas, o nú delas é o figurino”.


Chegam os cafés quando ligamos os três criadores das propostas que nos juntaram aqui: têm em comum também o facto de terem criado – e continuarem a criar, muitas vezes em condições adversas e de grande fragilidade - as condições para a sua própria prática (e sua transmissão) e para a construção de uma comunidade.


Talvez a comunidade maior seja aquela que nos engloba num esforço comum, capaz de re-ligar palco e plateia, interpretes e público, pessoas capazes de se comoverem juntas.