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15
May
CELUI QUI TOMBE: POURQUOI L'ON TOMBE?
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José Caldeira
Mon
15
May

Numa plataforma só, reúnem-se o que podemos assumir como dança, novo circo, acrobacia e teatro físico, que atraem à sala de espetáculos um público igualmente eclético. Do escuro começamos a vislumbrar seis corpos deitados numa plataforma, apenas deixando que a força da gravidade atue sobre eles. Numa abordagem romântica, os seis performers saltam sobre os obstáculos de uma viagem que desafia as leis da gravidade.

Três homens e três mulheres acordam num não lugar que se precipita vertiginosamente para o vazio. Um despertar de corpos que se elevam e param constantemente para tentar assimilar onde estão e o que se passa em seu redor. Que limbo é este onde nos encontramos aprisionados, sem referenciais aparentes de tempo e de espaço? De repente, a instabilidade instaura-se e temos de correr para sobreviver. Não controlamos o meio que nos envolve e parece que patinamos em gelo fino. Movo-me e apercebo-me que não corro sozinho, que corro com outros que não dominam as circunstâncias melhor do que eu. E de um momento para o outro, respiramos de novo e é-nos concedido um momento de pausa, um momento de pausa que usamos para nos questionarmos: Que máquina é esta que joga pelas suas próprias regras? Não há tempo para pensar, não há tempo para refletir e o mundo gira tão rápido que não nos dá espaço para saborear o momento, porque esse momento é já passado e parece-nos que já conseguimos vislumbrar o futuro lá ao fundo. De súbito, tropeço e caio, mas nem há tempo para chorar uma queda que já está cristalizada num passado inacessível. Corro e penso em desistir: ficar simplesmente parado no mesmo lugar e deixar o mundo correr perante os meus olhos. E se eu cair… melhor, se eu abandonar o meu corpo a essa força bruta que é a gravidade? Girar e girar, eu numa simbiose completa com o universo. E quando me levanto, estou agarrado a alguém ou esse alguém está agarrado a mim, e assim por diante vou estabelecendo uma relação com uma diversidade de corpos, umas mais prolongadas, outras mais fugazes, mais superficiais.


Num instante os pés tocam o solo, no outro o chão desaparece debaixo dos nossos pés e o mundo vira-se por completo de pernas para o ar. Dá-se um misto entre conflito e enamoramento do Homem com a máquina. Estamos pendurados por um fio, olhamos para baixo, incorporamos a vertigem, esse dissabor que nos repele por tanto nos atrair, e sentimo-nos um pouco mais vivos, um pouco mais em controlo, talvez.

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