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Documentário: a matéria e o corpo
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“Agamben parte de uma distinção entre ‘fazer’ e ‘agir’, que ele alicerça no jogo: ‘fazer’ tem sempre um fim exterior a si próprio, enquanto o ‘agir’ é um fazer que se enovela e se torna o seu próprio fim”

António Pinto Ribeiro, Por exemplo a cadeira




Um palco onde três televisões ocupam o fundo de cena e uma a frente da direita alta, nas quais são transmitidos, em repetição constante, vídeos da obra de Paulo Mendes, um artista plástico lisboeta com trabalho apresentado desde da década de 90. Aqui o primeiro contacto com o não tempo, o não espaço. A repetição das imagens sugere a ausência de tempo, mas com a referência bem presente da repetição, de um mundo fechado sobre si próprio.

Os corpos que entretanto se apresentam em cena são contagiados por esta ausência de tempo; adotam movimentos graciosos de união entre si e interagem com os demais adereços e cenografia.

Documentário é um esboço de algo que não está, é uma partitura de transformação, uma constante metamorfose de objectos que tanto são cadeiras como podem ser objetos que servem para imitar os cornos de um búfalo ou apenas um espaço de refúgio; a mesa serve para que todos os corpos subam para ela e se abracem, criando uma harmonia de corpos abraçados em pé – um palco sobre o palco. A mesa que é matéria e é corpo porque viaja sobre os corpos dos bailarinos até outras paragens do palco.

O que até então estava apenas presente nos televisores que ocupam a cena começa a contagiar os corpos quando vozes de comando invadem o palco: “todos para o chão”, “simulem uma luta de búfalos”, “duas pessoas seguem uma terceira”, “todos saem do palco”. Mas as ordens nem sempre são acatadas da mesma forma. É aqui que os corpos ganham uma outra dimensão, quando cada um deles interpreta cada uma das ordens à sua maneira, no seu espaço, e nunca seguindo a mesma ordem da mesma forma. A originalidade do movimento mantém-se constante, a não seguir a ordem, ao fazer o contrário ou simplesmente parando.

Sentimos como que uma tela a ser pintada fora dos seus limites. Tal como na obra de Helena Almeida “Tela Habitada” (1976), a constante movimentação dentro da grande tela que é o palco remete para um espaço circunscrito que de quando em vez é abandonado. Esta tela é habitada por seis pessoas que tanto se abraçam e se movem como um todo como também persistem em manter a sua individualidade quando cumprem as ordens que são lançadas para palco por várias vozes, umas vezes de forma clara, outras com interferências.

Sempre que surge uma ordem a anterior é interrompida para que a nova seja ativada. Esta dinâmica torna os corpos mais vivos. Corpos que no início do espectáculo se entretinham em movimentos subtis protagonizam agora um processo rápido e veloz. Corpos que respiram, corpos que suam, corpos em constante interação com o nada. As ações são repetitivas. As imagens estão em repetição desde do início. Não se ouve um diálogo, não há som entre os seis intérpretes. Esta partitura de transformação é executada por todos apenas pelo toque, troca de olhares e pressão exterior. Uma simbiose entre palavra, significado, tradução física e execução. Uma impossibilidade de compreensão do tempo que nos é mostrado.

Uma ‘small dance’, como refere Steve Paxton, decorre no pensamento do público. Pequenos pensamentos, contemplações, uma não vontade, uma não existência, um não tempo, um nada.

No início do espectáculo escuta-se uma voz que disserta sobre o nada e que a determinada altura questiona: “quando alguém morre, quem morre?”. No momento atual, de imensas partidas e chegadas, com o constante furor do mundo que insiste em contagiar-nos com mensagens a todo o momento por intermédio de uma tela luminosa com representações de teclas, como é visto o fim? A morte? Em que tempo? Qual tempo? Qual espaço? Qual cultura? Qual vídeo? Qual corpo?

Documentário é, assim, numa palavra, uma partitura caótica que desafia cada um de nós a procurar o seu nada num mundo tão cheio de tudo.

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