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GLIMPSE - 5 Room Puzzle: Na possibilidade da perda
Fri

 

05

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2017

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GLIMPSE - 5 Room Puzzle: Na possibilidade da perda
Rui Palma

Cláudia Milheiro

—Psicóloga Clínica e Psicanalista

Foi membro da Companhia de Bailado do Porto dirigida por Pirmin Treku —

Nos corpos coreografados de Tânia Carvalho ensaiam-se rituais protetores da possível perda cartográfica de limites coerentes. Os territórios externos, em gestos repetidos procuram-se, no sentido da coesão do Self no seu discurso corporal permanente.

Sente-se e ressente-se a fragilidade como em Pessoa, “…Sinto-me múltiplo, Sou como um quarto de inúmeros espelhos, Fantásticos que torcem para reflexões falsas. Uma única central realidade que não está em nenhum e está em nós”. Vagueando em espelhos de sombras ou no caleidoscópio cinéfilo, exprime memórias incontáveis sob a forma de símbolos que ultrapassam o próprio olhar: com um Xamã vigilante e perscrutador.

Nesta encruzilhada de destinos e desejos pulsionais, sentimos o significante, latente, que se transforma no real através do corpo que dança em sentimentos por vezes dolorosos de prazer ou desejo de completude; sendo que o “Eu é antes de tudo um eu corporal” (Freud). Podemos vê-lo aqui como uma projeção mental da superfície do corpo em que o impensado, neste fracasso, pleno de emoção procura corporalizar metáforas e questionamentos existenciais onde o Eu do real não sabe que lugar ocupar.

As perdas reais e imaginários, de natureza precoce produzem angústias pouco conhecidas e reconhecidas, doem e simultaneamente asfixiam e paralisam com receios arcaicos de solidão e abandono e é onde a arte da dança poderá permitir a fantasia. Como nos sonhos que a preto e branco que aqui se projetam, recriam-se mundos, espaços do interno ao externo e extensões mais seguras de si, respiráveis e vividas. Realizam o irrealizável dos prazeres adiados e recalcados em inscrições regressivas.

Nestes processos de passagem, dos processos primários de soma/corpo à dança, sublimam-se aspetos da sensibilidade do autor que remete o público para sentimentos e posições depressivas em que a criatividade tem o lugar maior de transformar num sentimento estético apaziguador. Mas, o fratante existe, fantasma infantil, que invade, avassaladoramente e sem piedade...

A arte desta dança na sua motivação contem, para além do pensamento, um processo e uma dinâmica inconscientes que não pode deixar de ter laços comuns entre o autor, objeto artístico e o público. O objeto da arte é-lhe característico e caracterial e invade o outro através da sua dimensão estética, que por sua vez lhe é devolvida, constituindo-se um par inseparável na análise de ambos. Nesta dialética tornamos o nosso olhar e vivência como público deste bailado "incompleto", porque carregado de desejo de outras experiências estéticas em continuidade deste virtuoso e criativo trabalho.

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