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Je(gi)rada
Tue

 

01

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05


2018
Não é uma crítica

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Não é uma crítica
Je(gi)rada
José Caldeira

Natalia Sá

— Tradutora —


Jerada. Girada. Uma rotação permanente, contínua, como a da própria terra. O ritmo, como o ritmo da própria cidade, o seu pulso. O coração da cidade começa a bater muito antes de nós chegarmos, continua aconteça o que acontecer, dá saltos pelas suas próprias razões, ignorante da nossa existência e, ainda mais que ignorante, indiferente.

Nós somos também. Partes desta cidade, deste ritmo, dos seus ciclos, da sua respiração. Saímos, anónimos, inesperados, não anunciados, da sala para o palco, saímos do palco para ninguém sabe onde. Somos diferentes ou somos iguais? Somos únicos? Somos, sim. Únicos como flocos da neve ou grãos de areia. Irreproduzíveis e… iguais nesta nossa singularidade.

Aristóteles disse que a cidade é a unidade de diferentes, mas será ao contrário? Será que é a dissonância de iguais? Igualmente bons, igualmente criativos, igualmente autossuficientes (ou não), igualmente vaidosos. Precisamos tanto de sermos aprovados, reconhecidos pelos outros… Mesmo se eles estão a bater palmas apenas para preencher o tempo de espera do seu turno. Estamos a fazer turnos. Estamos a dar voltas. Quanto mais depressa vamos, de mais espaço precisamos. Será que precisamos mesmo deste espaço para crescermos?

Ou será que esta rotação, este transe nos ajuda a não pensar? Será que nos mantemos ocupados para não nos preocuparmos?

Ou será que simplesmente nos é mais fácil guardar o nosso chamado espaço privado? Espaço que privamos da intimidade qualquer e ainda mais de personalidade. Reciclamos roupas e ideias. No Black Friday, como no Black Mirror, cada um é só por si próprio. No fim estamos sozinhos. Tanto como no princípio. Se quiseres ir depressa, vai sozinho. Se quiseres ir longe, vai com alguém.

Quanto deste espaço é que precisamos? Quantas pessoas a seguir cada uma o seu rumo é demais?

Somos um caos ou um sistema? Planetas ou eletrões? Encontramo-nos por acidente, por azar ou por destino?

Finalmente, é uma máquina de lavar ou um moinho? Saímos nós de lá limpos, de roupa a alma, ou o que sai já não é precisamente nós? Tornar-nos-emos farinha, pólvora ou simplesmente pó?

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