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PAPER LESS PAPER DRESS
Tue

 

02

.

05


2017

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PAPER LESS PAPER DRESS
José Caldeira

Mariana Santos Silva

— Atriz licenciada pela ESMAE. Aluna da Pós-Graduação em Dança —

Mariana Santos Silva

— Atriz licenciada pela ESMAE. Aluna da Pós-Graduação em Dança —

A atmosfera parisiense do espetáculo inicia-se ainda no período de espera no átrio do Coliseu. "Paper Less Paper Dress" é um espetáculo de formato intimista e apresenta-nos um espaço cénico altamente feminino, com um vestido / quimono branco em grande escala pendurado. Marianne surge com um dança elegante, feminina e com um toque clássico. Esta é uma dança-hino à alegria e aparece-nos como um manifesto. Marianne parte da ontologia da dança e desconstrói-a sem receios ou hesitações. A sua energia irradia um bem-estar e alegria de espírito contagiantes e a sua dança põe-nos em contacto com o povo indígena que há em cada um de nós. Os seus movimentos evocam verbos como desenhar, pintar e escrever, sensibilizando-nos para o estado de decadência do uso do papel e para a crescente preponderância dos suportes digitais.

Os passos cíclicos e ritualísticos são-nos transmitidos como que uma veneração à deusa mãe, à deusa da fertilidade. Uma artista repleta de presença e atitude, Marianne exibe uma figura larga, grande e com formas, que parece preencher todo o espaço e que, ao mesmo tempo, nos remete para o seu lado guerreiro e de rainha das amazonas. A projeção no vestido branco faz-nos ter noção da passagem do tempo e dos dias, apoiando essa ideia de ciclo da vida, em que o sol nasce, logo para se pôr e nascer outra vez, pois a terra gira sobre si própria e o sol por sua vez gira em torno da terra, sem nunca cessar.

De súbito, o solo transforma-se num dueto, com um espantalho, com um personagem masculino. "Paper Less Paper Dress" revela-se uma peça de dança altamente teatralizada, em que a performer vai adotando várias personagens desde a dançarina de cabaret, ao apresentador de circo, ao palhaço e ao bouffon. Marianne chega até a ser possuída por um vilão velho, corcunda e sarcástico, que se vai deixando corromper pelo lado animalesco e bestial, adotando o resfolegar, o respirar e o trotar do equídeo. A sua expressividade passa pelo corpo, pela face e ainda pelas palavras.

Podemos assumir que há duas pausas, dois choques com a realidade, que contrastam com os mundos oníricos propostos de selva, savana ou dunas: a primeira quando as luzes de plateia se acendem e a música finda para dar lugar ao circo, ao mundo do show business; a segunda prende-se com a quebra para beber água e trincar uma maçã, em que o espectador torna a ter consciência do espaço em que se encontra – sala 2 do Coliseu do Porto – um espaço feminino com um vestido branco gigante, com umas cortinas rosa-velho e uma sala com laivos do classicismo greco-romano.

A manipulação do papel de jornal faz-nos passar pelo meio de um vendaval, em que o vento sopra com mais ou menos intensidade, com momentos eufóricos contrastados com momentos de apaziguamento e calmaria. Procurando de forma criativa dar uma nova função ao papel, Marianne tenta transformá-lo em vestuário, em vestido de papel. A artista convoca o sentido da audição e corre pelo espaço com uma tela gigante, como que de uma locomotiva se tratasse. Esta cria o seu próprio enquadramento, para logo de seguida o desconstruir, cumprindo a vontade do espectador e rasgando pelos quadros numa corrida libertadora. Chegamos então a um momento pessoal e que faz sobressair o caráter intimista desta peça, um momento de partilha da sua vida privada e que encara a maternidade como uma experiência corporal.

O final deste solo é particularmente forte, evocando um erotismo e exotismo que remetem para o lado burlesco de Marianne, que com uma corpulência felina seduz o público numa pequena plataforma, como se pusesse o seu corpo à venda numa prateleira, numa vitrine, numa bandeja. A sua forma peculiar de combinar ideias, formas e materiais faz deste solo um espetáculo muito completo, que nos leva numa viagem / montanha russa emocional, onde confluem vários géneros de dança num só corpo. Marianne evoca um humor muito especial ao longo de toda a peça que nos faz rir com uma leveza refrescante, para no momento seguinte engolir esse sorriso e sentir calafrios que nos gelam os ossos. Resta-me agradecer este convite to take a walk on the wild side.

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