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Pinacendá
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Mi abuelo me decía, para salir a bailar por “soleá”( estilo flamenco) , que me imaginara un puente de madera viejo, hay que pisarlo con firmeza, para que no se tambalee, pero no con más fuerza de la cuenta para que no se rompa y cayera al precipicio, ¿Qué precipicio, le pregunté?, el de la soleá, ¿te parece poco?

Juan Manuel Fernandez Montoya, Farruquito.


Apesar de permanecer um mistério, a origem da arte flamenca parece remontar a meados do séc.XVIII de acordo com registos que datam e fixam as primeiras referências de canto e guitarra flamenca no seio de algumas famílias andaluzas de etnia cigana. Nasceria então no espaço físico compreendido entre as cidades de Sevilha, Cádiz e Jerez de la Frontera, na provincia que dá nome a este último espetáculo de Farruquito. Andaluzia ou PINACENDÁ em “caló” (língua cigana), e a que pudemos assistir no dia 12 de maio no Coliseu do Porto durante o encerramento do Festival DDD - Dias Da Dança.

Uma arte que atravessaria fronteiras e continentes para se afirmar, em 2002, como uma manifestação artística de caráter universal, declarada então como Patrimonio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Tão distante então do seio das familias que a viram nascer, a arte flamenca ou o flamenco como manifestação artística, percorre mundo como um viajante, apaixonando públicos, conquistando intérpretes, derrubando formas, criando escolas. Uma arte que se quer “pura” para conservar a sua essência, mas que paradoxalmente se encontra em continua transformação de acordo com a forma de sentir de cada intérprete, de cada artista, de cada mestre, de cada flamenco.

Não é folclore. Não é arte popular no sentido de que não é uma manifestação regional , como o podem ser as “sevilhanas”, canto e dança populares que obedecem a quadraturas e coreografias especificas. Nem se identifica com a rumba flamenca que apareceria mais tarde na região da Catalunha, mais concretamente em Barcelona, e que grupos ou intérpretes internacionais, mais ou menos “aflamencados”, ajudariam a conquistar para si dando-lhe uma notoriedade mundial efetivamente de caráter popular.


O flamenco é uma arte. Uma arte que se passeia no fio da navalha das emoções e não propriamente de segunda a sexta-feira como explica em tom divertido Farruquito numa entrevista: “no se puede ser flamenco de lunes a viernes”. Porque o flamenco mais do que uma arte é, de forma intrínseca, uma forma de ser e estar na vida. Juan Manuel Fernandez Montoya, conhecido por Farruquito é, por legado familiar, filho, sobrinho e neto de artistas referenciados como grandes nomes na história do flamenco. Apenas com 35 anos de idade, este “bailaor” (bailarino flamenco), é apelidado carinhosamente por companheiros de trabalho como Mestre. Um privilégio que no mundo flamenco é apenas concedido a artistas de outra geração que não a sua.


PINACENDÁ, ou “Andaluzia”, traduz assim um nome que quer reivindicar ser a sua fonte de inspiração, ao designar a região que o viu nascer e que faz parte das suas vivências. No entanto, uma inspiração quem sabe, muito mais do que geográfica, que reivindica as suas próprias origens consanguíneas na voz que o acompanhou desde criança. Uma voz que foi movimento através do seu avó, apelidado El Farruco. Patriarca cigano, sevilhano, homem de uma força emotiva poderosa e que transmitiria ao seu neto um conhecimento ancestral aliado ao estudo de uma técnica depurada posta ao serviço de uma arte emotiva. Juan estudou, muito! Estudou “como atravessar rios” tal como lhe explicava descrevendo o movimento o seu avô desde criança. Por metáforas, por sentido mais do que por imitação. E Juan aprendeu a improvisar porque conhece o código e aprendeu a linguagem que forma o flamenco. Domina os “palos”, estilos musicais de cada “cante” e improvisa criando, para êxtase de um público, que agradece a generosidade do artista no palco. Juan aprenderia finalmente a atravessar rios “e a não se picar nas pedras”!…

No Coliseu do Porto, mais do que dançar, mostrou e demonstrou porque é apelidado de Mestre pelos seus companheiros de profissão. No seu olhar lê-se Andaluzia e a história de um povo. Lê-se e sentem-se os longínquos laços de sangue que o criaram e lhe deram voz. Os dois séculos da história desta arte estão na forma como quase imperceptivelmente o seu corpo se contorce enquanto o seu domínio técnico elabora um complicado jogo de sons através do sapateado que, mais do que música, evoca vozes… São lamentos mas também rebeldia e decisão. Força abrupta. Imprevisível mesmo para os músicos que o acompanham neste espetáculo. Na sua dança, no seu corpo, cada músculo cria e aguenta uma tensão levada até ao limite para irromper em pura energia. E um sorriso de quem é consciente do que provoca.


Agradecem-se os músicos de exceção que o acompanharam todos eles únicos na sua forma e saber. E no final o público de pé rendeu-se e aplaudiu vivamente o Mestre flamenco sevilhano. Porque na história da arte flamenca, muitos serão os artistas, alguns criando nos nossos dias escolas de um flamenco contemporâneo que roça a genialidade como é o caso do bailarino Israel Galván, artista que o público portuense pode ver e aplaudir no Teatro Rivoli em julho de 2017. Mas muito poucos podem reivindicar para si a escola do flamenco de sangue, de genes, de condição ancestral, de casta e raíz, de família. Sem artifícios, sem mais cenário que a própria memória de sangue e a sua história de pontes e rios.


Sinto-me muito feliz que a organização de um jovem festival internacional de dança de tão elevada craveira como o Festival DDD, organizado nas cidades do Porto, Matosinhos e Gaia, vivenciado com essa força com que se define , “como um projeto federador de vontades políticas, sociais e culturais”, tenha tido a sensibilidade de convidar neste ano de 2018, e para o seu encerramento, uma figura ímpar da dança, com o reconhecimento e prestigio mundial que caraterizam o “bailaor” José Fernandez Montoya, Farruquito.

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