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TORDRE: (DES)DOBRAR-SE SOBRE SI MESMO
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Patrick Imbert
Mon
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May

Dois corpos vestidos de negro entram no espaço branco, o do palco, apenas marcado por estruturas longilíneas e negras, suspensas e móveis, que projetam sombras igualmente móveis mediante o redirecionar constante da luz, como marcações do espaço cénico. Dois corpos de duas bailarinas entram sincronicamente ao som, como se fossem apresentar um espetáculo musical da Broadway. Duas bailarinas entram vestidas de negro, uma com o que parece ser um traje clássico de ballet — pés tapados e cabelo perfeitamente apanhado — e outra com algo que nos aparece como informal e do universo contemporâneo da dança — descalça e com o cabelo solto. Roupagens que deixam mais ou menos a descoberto o encontro entre a superfície do corpo e o espaço envolvente.

A música altera-se completamente. A trilha sonora que evoca o espetáculo musical é substituída por uma experiência sonora sem ancoragem, numa forma de repetição extática. Entramos, assim, num entreato, no fora-de-campo do grande espetáculo musical, na vida que se realiza no fora. Aí, dançam-se duas linguagens diferentes, que começam por diferir no espaço e marcadamente na própria forma do movimento. Uma com gestos ondulantes, circundantes, em movimentos concêntricos, gira em espiral, em círculos cada vez mais fechados, quase vacilante inicialmente, caminhando rapidamente para uma imperturbabilidade irrepreensível; quase toda de negro, como uma silhueta, e cuja silhueta rodopiante no chão e nas paredes a desdobra em múltiplos planetas que circundam uma estrela vazia. Um espaço vazio que ocupa intermitentemente. Com ela movem-se também as estruturas em feixe, paralelas ao solo, formando igualmente círculos no chão, como ponteiros de relógios. A outra dança com gestos penetrantes, quebrados, como se estivessem alinhados com as estruturas negras suspensas e os caminhos projetados no solo, e como se se realizassem em instantes discretos, retilineamente, ora em convulsão, ora em suspensão, excêntrica, fazendo do chão também espaço de dança.

Dois corpos desencontrados, mas à deriva, à procura de uma (im)possível fuga. Dois corpos que, no entreato, entre o início e o fim do espetáculo, dançam afastadamente, em planos diferidos no tempo e no espaço. E, quando acabam por colidir num primeiro momento, aquela que estaca torna-se amparo e muro daquela que rodopia febrilmente. Nos instantes de colisão e de pausa, abraçam-se, brevemente. Mas sem mais ousar insistir nesse gesto, deixam-se voltar ao eterno retorno do movimento, parecendo abraçar uma não-relação, ou talvez uma relação afásica — a fuga no exercício da paragem contemplativa, a fuga no exercício do movimento incessante.

Ficamos a conhecer os nomes delas aquando da narrativa contada por Lori, aquela que não pára de rodopiar. Fala-lhe, à outra, a Annie, e fala-nos. Percebemos que os nomes da história coincidem com os nomes identitários de bailarinas. Suspeitamos que a história seja a delas e que elas dancem a própria história. Sorvemos tudo o que nos dizem, tomando parte na investigação em ato do movimento. Tudo acontece no tempo do próprio relato. Tudo acontece no ensaio em ato. Tivemos já disso intuição quando ouvimos Nina Simone a cantar ao vivo, ao mesmo tempo que faz anotações sobre a própria palavra cantada, cujo movimento de vaivém é arrancado àquela que dança e nela se faz corpo, a Annie. Aqui, já se notando a maleabilidade do espaço cénico, que se estende para o lado de cá, timidamente, em indicações de mudança de etapas narrativas. No entanto, a dança faz-se entre elas. Em êxtase, Lori, rodopiando incessantemente tem por interlocutor Annie, que se deixa moldar a uma das estruturas suspensas, como se descansasse num baloiço. Parar, podendo observar o mundo a rodopiar. Rodopiar, podendo ver o mundo em movimento. Entre o comboio em movimento e as estações. Cada uma delas parece ser a presença fantasmática da outra; não como ausência, mas como a presença do que não está no encerramento de si mesmo. Dobrar alguém sobre si mesmo.


E, no meio do entreato, lá decidem acabar. Dizem-nos, Lori diz a Annie, dizem-se uma à outra. E encerram o espetáculo, cujo vazio — espaço branco — revelou à luz o entreato, o ensaio. Encerram-no tal como o abriram.

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