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UM[UNIMAL]
Sat

 

05

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05


2018
Não é uma crítica

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Não é uma crítica
UM[UNIMAL]
© José Caldeira

Tiago Teixeira

— Médico —

“Um [unimal]” parece surgir como uma representação metafórica de um certo fenótipo de relações sociais de poder. Por definição uma relação de poder implica assimetria, entre quem tem autoridade e quem não a tem, ainda que, por vezes, esta seja um meio necessário à finalidade da relação. Veja-se o caso médico-doente, pelo qual, um doente abdica da sua autonomia, e concede ao médico a possibilidade, o poder de decidir por si, reconhecendo a sua capacidade técnica e suposta, digamos, bondade moral.

No caso desta representação, não se fica com essa sensação de liberdade, bem pelo contrário, a interpretação é condicionada ao livre arbítrio de quem tem autoridade, mas que aparentemente a exerce de uma forma opressiva e esmagadora. Tudo parece ser imperativo num primeiro tempo desta representação. O intérprete obedece a frases curtas, funcionais, que reduzem a sua expressão corporal a movimentos simétricos, repetitivos, estereotipados, quase que mecanizados.



Apesar deste exercício de poder decorrer num palco amplo e iluminado, as ordens são executadas num quadrado claustrofóbico, muitas vezes limitado ao espaço exíguo definido pelo corpo do intérprete e por um jogo de sombras que intensifica essa sensação de claustrofobia. Como se no limite a pressão espacial exercida, levasse ao seu esmagamento e aniquilamento. A cadência e a violência das ordens vão aumentando de intensidade, matizadas num registo de marcha militar, enquadrado por uma percussão sincopada e estridente.



Ainda assim, e mesmo supondo que no fundo estamos face a uma forma de escravidão (sabendo que há muitas formas de escravidão), a manutenção deste diálogo assimétrico poderia garantir a sobrevivência ainda que absurdamente desigual de todas as partes envolvidas. Mas não. A obediência, ou melhor, o abuso de poder é levado ao extremo, à distorção de todas as possibilidades de expressão, à exaustão, à morte. Aqui a morte é bem física e chocante, o corpo vai-se dissolvendo em dor, espasmos, amputações, suor e vómitos!



Contudo, ainda que inesperadamente, este corpo aparentemente morto parece permanecer e resistir, e, supostamente, libertando-se da autoridade, recupera a sua autonomia, passando a expressar-se em movimentos assimétricos, desenhando livremente no ar curvas revolucionárias num palco que encolhe face à dimensão agora real e inteira da intérprete (não é neutra a primeira identificação de género neste texto, como se esta libertação permitisse também conhecer melhor a identidade da intérprete). A percussão já não é apenas marcial, já não pauta os anteriores movimentos estereotipados, mecanizados, mas harmoniza-se com a espontaneidade da interpretação, num transe festivo, criativo, electrónico. Transpira-se controlo total, transpira-se prazer!



E por fim, parece ou deseja-se que o epílogo signifique que a autoridade tenha ficado a falar sozinha.

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