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MINOR MATTER: A BATALHA INFINITA DO CORPO
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José Caldeira
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Deparamo-nos com um palco aberto, vazio, negro, sem qualquer objecto de décor; uma reverberação sonora como um motor, um estatismo lento, denso; fumo flutuante por toda a sala. Um negativo de sombras feito de instantâneos luminosos começa a aparecer. Uma narrativa verbal surge através de uma voz que nos diz dessas sombras, desses corpos, desse estado das coisas. Vislumbres de corpos posicionados, a ensaiar movimentos discretos, isolados, de contornos que se tornam nítidos no desenho de luz. A música dá o mote, evocando um passado que reconhecemos na história dos jograis e das batalhas campais. Uma marcha imponente começa e os instantes de pose dão lugar, aos poucos, a movimentos pulsados, frémitos de um movimento contínuo que vemos percorrer os corpos. Três corpos posicionados em marcha, uma marcha que avança aos soluços e um movimento que é contido nesse redor, mas que se reclama presente.


Atravessa-nos uma energia cada vez mais forte, cadenciada, em ritmo crescente. Sentimos ser invadidos por essa energia. Energiza-nos o corpo, o nosso. Batemos o pé, impacientes, dançamos por dentro com os corpos que nos incitam, que estão diante de nós. Apetece-nos também aquilo, aquele impulso. O impulso que os faz invadirem-se. Stand up. Uma luz pontual ilumina um deles que fala connosco atrás de um microfone; caminha até nós, interpela-nos, e aí, encontramos um olhar sem fora, intensamente negro, que nada reflecte, que nos engole. Fala-nos da batalha do corpo, da batalha dos corpos, que os outros dois materializam; fala-nos da disciplina, do trabalho, da luta. Fala-nos ainda do sucesso. E da batalha infinita. O que pode um corpo falhar? Como pode uma dança falhar? Ao que sucumbe um corpo? E essa batalha infinita? Voltamos à marcha. À batalha infinita?


A própria música vai percorrendo a história dos corpos arquetípicos de batalha. Dos lugares nobres das figuras guerreiras, de cavaleiros e gladiadores, até à imagem projectada de atletas e desportistas que se nos mostram em slow-motion, cuja imagética corporal emergente se manifesta no recorte muscular exemplificado da alta performance e nos esgares duros como sintomas de um esforço sensível. Esgares. Luzes. Instantes breves de corpos na luz agora negra. Nuvens de fumo. Aqui e ali. Cortes instantâneos no contínuo fílmico. Como uma festa. Agora.


Aprendemos com eles o ritmo da dança. Aprendemos o ritmo do movimento. Como se nos mostrassem não que trajectória seguir, mas como agir em si, no seu próprio corpo. Um movimento capaz. A disciplina dos corpos. A disciplina da conduta dos corpos que perspiram. Até à insubmissão. O trabalho colectivo dos corpos. Rolam, empurram-se, elevam-se, consomem-se no vermelho das redes projectadas. A luz é agora vermelha, pela qual é projectado um feixe mais denso, como uma rede luminosa de vigilância. Rebolam como ondas singulares para imergir no plano conjunto. Percorrem-se às cegas. Olham-nos de frente, confrontam-nos. Olham-nos, esses olhos negros, de um magnetismo sem luz. Falam da narrativa desses corpos disciplinados. Do trabalho de força dos corpos. Avançam, ocupando cada vez mais o espaço aberto. A batalha trava-se mais no espaço, com o espaço. Convulsionam-se. A força animada. Ânimo. Motor de arranque. Energizam-nos, uma e outra vez. Deliram juntos o corpo. Afirmam o (im)possível. Outra voz, a duas vozes, três? Há um incitamento de tornar os nossos corpos também presentes. Marcham. Implodem. Instantes quaisquer, agora, no fluxo indiferenciado. Movimentos, então, numa lentidão contínua onde se descortinam esgares. Como se tudo nos oferecessem de si, como se tudo nos mostrassem com o corpo. Emergem do chão. Correm de um lado para o outro. Trepam. Usam-se como suporte, como meio. Os corpos dos três são o meio de subir e subir e subir. De crescer e crescer e crescer. Na batalha. Ocupam cada vez mais espaço. Vemos, então, o espaço todo. O palco, completamente iluminado, mostra-nos ainda esse vazio de objectos, esse espaço aberto e confinado, onde os corpos lutam com as margens agora invisíveis que a luz total não deixa ver. Formam um todo. Um colectivo comum. Uma questão menor que se insiste? Incitam-nos a essa marcha desorganizada, de tornar evidente o espaço, de tornar evidente o corpo. Combatem-se. Batem-se. Procuram a solidez do espaço como se abrir buracos no chão e no ar pudessem. Violentam-se. Sentem-se. Mostram-se. Brincam, então. Afirmam o corpo e como agi-lo?


Abrando, eu. Penso nessa questão menor. Nessa falha mínima que pode ser a quebra do plano fixo. Na queda, na convulsão, na generosidade de encontrar o corpo do outro, de usar o corpo do outro, na fragilidade do corpo do outro. E na força do que menor, cresce, reorganiza-se, atrai-se e trai-se, aí. Experimentam-se. Experimentam nesse corpo que (des)organizam uma comunidade de corpos singulares. Há uma energia produtiva que se sente, que nos atravessa. Uma efusão. Há uma afirmação de si. Do estar aqui. Do mostrar-se aqui. De querer presente o próprio corpo, a sua contenção e a sua exacerbação, que conflui na curiosidade de experimentar-se e de experimentar o limite do espaço.

Pedem para acabar. O escuro. A queda da luz. Formalmente, o momento final. Constatamos esse fim e saímos ainda assim: atravessados por essa energia que não se esvai. Infundidos. Esventrados. Como se o seu pulsar fosse agora o nosso. Como se nos tivessem preparado, agora nós, para essa batalha infinita de ser corpo. E para dançar.

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