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TO DA BONE: ENSAIAR O VIRTUAL
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Entramos. O palco despido, entrega-nos o seu avesso, as suas vísceras. Será esse o espaço que teremos. Silêncio. Um a um, e de todos os lados, entram corpos vestidos com roupas de cores fortes e vistosas. Muito próximos uns dos outros, num grupo coeso, começam uma coreografia conjunta em jumpstyle. É do jumpstyle que nos vêm falar, que nos vêm dançar. Organizados, sincronizados, numa contagem que partilham (por momentos), saltam, rodam, marcham. Aumentam o ritmo, levam-se até ao extremo da velocidade, incitam-se uns aos outros — a vocalização da contagem, da respiração que sai pesada é a marca desse esforço a adensar-se. Mas também de uma energia que se produz e se reproduz no corpo coletivo.



Como se apenas tivesse sido um exercício de aquecimento, páram, respiram fundo e (re)organizam-se. Alinham-se, voltando-se para nós, e avançam ao som da música crescente. Paragem, slow motion. Há uma provocação com tom de publicidade, de auto-promoção. A ficção de uma super-produção da imagem.



A música diminui até se extinguir. Posicionam-se ao acaso. Alguns solos, piruetas, rodopios. Fragmentários, ocupam o espaço dançando, observando o outro que dança, desafiando-o, como num ensaio. Répétition: repetição e ensaio. Um aqui, outro ali, cada um na sua língua, dão voz àquilo que ensaiam fazer. Compreendemos algumas vozes. Confundimos outras. Não percebemos aquela. Uma confusão de línguas, de estilos, de vocalizações: a própria estrangeiridade abre-se em nós. Na desordem do discurso, na ausência de uma continuidade coreográfica, apercebemo-nos (a nós mesmos) no meio dessa informalidade do ensaio. Somos incluídos, estamos ali também nesse encontro que é, sobretudo, sobre dançar.



Formam uma roda, dançam. Numa coreografia coletiva de marcha, salto, rodopio, pirueta, variam em velocidade, provocam-se, provocam a dança, aclamam aquele que se deixa dançar até à êxtase do movimento. (Re)organizam-se. Apresentam-se, uma outra vez. Mostram-se. Vagueiam pelo espaço. Respiram, onde o respirar tem parte. Onde os arranques e as perdas de energia fazem também parte. Onde é tudo em meio de se ensaiar.



Attention. Grito de guerra. Entra uma câmara. Filmam, filmam-se. Projetam aquilo que filmam. Tudo em meio de se fazer. Conversam. Discutem. Falam em várias línguas: explicam o processo, os meios, os encontros, os lugares. E, no meio, da incompreensão oral, da desordem do discurso, pedem a alguém que suba ao palco e sirva de intérprete. Falam connosco. Mostram-nos como fizeram, como fazem, como têm feito. Projetam aquilo que filmam de um ecrã de telemóvel que mostra um vídeo desse jumpstyle, onde se encontraram. A intersecção dos media. O grande plano de cada pormenor de cada corpo dançante. O adensamento das camadas visuais, das camadas virtuais. Apresentam aquilo que documentam, em acto. Eliminam o arquivo per se. Faz-se tudo ali: talvez mesmo o ensaio de eliminar o próprio diferimento dos meios imagéticos que, cada vez mais ubíquos, cada vez mais omnipresentes, produzem uma urgência de serem pensados (em acto), na urgência do aqui e agora, fora da mediação que lhes é própria?



A peça continua. A dança continua. O ensaio continua. Repetição. Tudo em simultâneo. Tudo se atravessa. No virtuosismo do movimento, nesse lançar-se no êxtase da dança, dançam-se a si mesmos. Sem conseguir parar. Como se o movimento, o próprio jumpstyle fluísse por todo o corpo, excêntrico a si mesmo.



Um a um, cada um deles é-nos apresentado. Os seus nomes, as suas idades e algumas das suas ocupações. Cada um dança sobre si mesmo, nesse médium em que encontraram o espaço colectivo que ocupam. E, tão múltiplos, como as cores que envergam, são também os seus espaços estilísticos. Grandes planos de rosto na imagem, em slow motion. Diferimento imagético. Deformação visual. Não rostos individualizados, mas rostos singulares num colectivo auto-afirmado.



Escuro. Luz intensa e fumo. A ficção da super-produção. Silhuetas. A evidência da velocidade de movimento que varia com o modo de fabricação da própria imagem. Como ocupar uma herança de auto-geração da própria imagem da qual somos também espectadores? Encontramos aqui uma dicotomia da auto-representação em alternância. Ora a ficção de uma fabricação mediática, cujo aspecto visual tem contornos bem desenhados, nítidos, sob uma luz delirante, hiper-contrastante, e onde o tempo é função de representações reconhecíveis, mas aleatórias na efusão do arquivo visual que nos é contemporâneo. Ora o esboço constante dos gestos comuns, singulares, extemporâneos, em que o esforço, o ensaio, a repetição, a potência do corpo, se estendem no plano do visível que é, ao mesmo tempo, um plano de comunidade.



Talvez seja este o fazer que nos entregam: a forma problemática de se dizerem em narrativas (identitárias) possíveis. Talvez se trate de trazer ao espaço público, à criação de uma comunidade, o que se foi construindo como plano virtual, como encerramento e omnividência. Trazer para o espaço público esse virtual, trazê-lo para o corpo. Fazer-se corpo coletivo. Reclamar um corpo e um espaço público.





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