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SU8MARINO: (RE)CRIAR NOVAS FORMAS DE EXISTÊNCIA
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A performance Su8marino, de Joana Castro, convida-nos a uma aproximação dos processos de (des)(re)territorialização[1] implicados nas formações subjetivas e políticas que se articulam na questão das fronteiras contemporâneas. Compreendemos que na ausência absoluta de um território o corpo afunda. Ao afundar, habita um outro meio a partir do qual cria novas formas de existir.

Estamos diante de uma escuridão árida. Temos a sensação de afundar, camada sobre camada, cada vez mais profundamente. Encontramo-nos num meio aquoso. Nas profundezas mais recônditas do oceano. Apenas um sinal de luz nos chega como um apelo, uma pulsação ininterrupta. Lentamente, vemos breves fragmentos, pequenos instantâneos: as mãos, os dedos das mãos, os braços. Desaparecem e ressurgem, fragmentários, dissociados, e mostram-nos, aos poucos, um corpo que não se deixa conceber inteiro. Como num reconhecimento do território obscuro do oceano, pequenos gestos são encontrados, iluminados e trazidos para perto dos olhos.

No chão, existem incontáveis grãos que contornam a porosidade do solo (um território faz-se sempre com mais de um), não uma unidade homogénea, mas uma multiplicidade movediça. Um território em formação: jamais uma extensão topográfica, mas um modo de existência que encontra realidade num meio com o qual estabelece conexões. Vemos, aos poucos, que este corpo vive numa alteração dramática do seu meio habitual e reinventa-se, adquirindo outras estruturas fundamentais para a sua sobrevivência: guelras, escamas e respiração branquial. Diante de nós, está um corpo-língua-bicho que fareja e lambe a própria carne animal, humana, suspensa entre o território perdido e a refundação de seu habitat.

Entre a intermitência frenética das luzes e a viscosidade morna de uma zona abissal, assistimos à aproximação de um organismo invertebrado. Não mais e ainda um corpo. Antes, uma membrana, um devir-plâncton, híbrido luz e movimento, apenas um feixe de luz que dança e desaparece no espaço. Neste entremeio, a luz oferece-nos a condição de visibilidade dos movimentos e, ao mesmo tempo, retira-nos a possibilidade de acompanhá-los, provocando uma invisibilidade a cada vez que o foco de luz nos alcança. Estamos ofuscados e alcançamos os fragmentos das cenas.

A performance coloca-nos diante de um corpo que é um território em aberto, cujas fronteiras nunca são determinadas por um fechamento estático. As suas extremidades são permeáveis, percorridas por diferentes matérias que coexistem em desestabilização e rearticulação dos seus limites. Esta abertura convoca a exigência de um movimento que se afeta pelo que chega de outras regiões do oceano, movendo-se segundo outros ritmos.

Este corpo que acompanhamos as metamorfoses é, ainda, aquele que se desloca sobre o solo, sobre o chão que o sustenta, é ainda um corpo que existe sobre um território. Um espaço permanentemente em trânsito, cujas fronteiras se relançam, trazendo a heterogeneidade como o produto das relações que o constituem.

Quando as luzes se estabilizam, vemos um cenário áspero, desértico, que nos lembra os espaços contemporâneos de interdição dos fluxos migratórios e de estreitamento das potências de vida. Nesta paisagem, um tecido vermelho emerge do chão como fogo, como líquido. Este momento recorda-nos as bandeiras de uma luta que se ergue incansável pelo direito de viver sobre um território. O correr do sangue nos corpos que vivem entre os limites reconfiguráveis dos seus poderes. A consolidação de novas estratégias que resistem às bandeiras representativas dos estados soberanos e ao fechamento de um espaço sobre si mesmo.

Este mesmo corpo que vemos em palco evoca os milhares de corpos no fundo do mar europeu. Daqueles que atravessam as fronteiras para a reconstrução dos seus lugares perdidos. Daqueles que possuem em comum com os grãos de areia no solo a mesma procura pelas partículas ínfimas que desfazem a solidez dos muros. Daqueles que expandem as suas forças para além das linhas divisórias da opressão. Um corpo que procura por maneiras de respirar num meio inóspito, diante da exigência de formação de novas estruturas fundamentais para a sua existência.

Vemos os rastros dos movimentos desenhados no chão, os vestígios das trajetórias sobre o espaço desfeito e a ausência que ali se inscreve. Estas linhas sobre o chão falam-nos dos acontecimentos que nos chegaram por flashes, mas sabemos terem tido lugar. A escrita de uma despedida do antigo estado, um movimento que guarda a história da sua passagem.

Outro meio: terrestre. Como num impulso capaz de transpor a distância entre o fundo do oceano e o centro das matas, um novo processo de transmigração desencadeia-se. Desta vez, e ainda outras, um recomeço sem fim.


[1] Articulação entre as noções de desterritorialização e reterritorialização presentes no pensamento de Gilles Deleuze.

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